Há dias, um mandatário político ofereceu ao país uma inovação científica de valor incalculável: o sofisticómetro forense. Segundo esta tecnologia revolucionária, um “tipo inteligente e sofisticado” não pode, por definição, dizer “coisas horrorosas”. É uma espécie de vacina moral administrada através de gravatas de seda e vocabulário articulado.
A justiça portuguesa, sempre aberta à modernização, deveria tomar nota. Afinal, quantos processos poderiam ser resolvidos com uma simples pergunta: “O arguido é sofisticado?” Se a resposta for sim, fecha-se o processo, agradece-se a presença e oferece-se um café. Se for não, convém investigar melhor — talvez até chamar peritos, que isto de gente simples é sempre mais imprevisível.
A lógica é cristalina: a inteligência e a sofisticação funcionam como repelentes de comportamentos impróprios. Tal como o alho afasta vampiros, o domínio da sintaxe afasta impropriedades. Um homem que sabe usar “todavia” numa frase não pode, jamais, cometer um deslize verbal. É ciência.

Jurista
A justiça portuguesa, sempre aberta à modernização, deveria tomar nota. Afinal, quantos processos poderiam ser resolvidos com uma simples pergunta: 'O arguido é sofisticado?'
O argumento tem, aliás, aplicações práticas extraordinárias, como, por exemplo, no trânsito o condutor poder alegar “Sr. Agente, eu conduzo um carro híbrido e pessoas com consciência ambiental não passam o vermelho.”
A sofisticação, segundo esta nova doutrina, não é apenas um atributo: é um álibi universal. Um escudo ético. Uma espécie de Airbag moral que se ativa sempre que alguém tenta responsabilizar-nos por algo inconveniente.
Claro que, num mundo real, sabemos que inteligência e sofisticação nunca foram sinónimos de virtude. A história está cheia de génios brilhantes com comportamentos deploráveis e de pessoas simples com uma integridade à prova de bala. Mas isso estragaria a narrativa — e a narrativa, como sabemos, é o maior património da política.
O mais curioso é que este tipo de argumento, ao tentar defender alguém, acaba por insultar todos: o público, pela ingenuidade que pressupõe; a justiça, pela leveza com que a contorna; e até o próprio acusado, reduzido a um bibelô de porcelana demasiado requintado para se envolver em trivialidades humanas.
No fim, resta-nos agradecer ao mandatário por este momento de inovação conceptual. O país precisava de um novo instrumento retórico para juntar ao arsenal nacional, ali entre o “não comento casos concretos” e o “está tudo dentro da normalidade”.
O sofisticómetro veio para ficar. E, quem sabe, um dia poderá até ser usado para avaliar argumentos como este. Nesse caso, teme-se que o aparelho expluda.
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