Dizem-nos que «Évora/27», Capital Europeia da Cultura, integra com entusiasmo o projeto ECOC Echo – Maximising the impact of the European Capitals of Culture beyond the spotlight year, no âmbito do programa Interreg Europe. Um projeto que reunirá stakeholders, estratégias e sinergias — e, quem sabe, até algumas pessoas. Ou seja, traduzindo para a cada vez mais negligenciada língua de Camões, relegada em favor de jargões europeus e tecnocráticos, trata-se de garantir que o impacto cultural de uma Capital Europeia da Cultura não se esgote no ano do respetivo holofote, mas reverbere no tempo e no território.
Mas enquanto os relatórios se acumulam e os fóruns se multiplicam, a cultura vive-se noutras linguagens.
Lá para os lados de Évora, numa aldeia onde o tempo se mede em sombras de sobreiros, dois compadres sentam-se lado a lado num banco junto à estrada. Não falam. Não precisam. O mundo passa — e eles ficam.

Jurista
Uma Europa que proclama o multilinguismo como valor fundador, mas se pronuncia em inglês — língua oficial de país nenhum no seio da União
Um carro, conduzido por um turista não fluente na já referida, e cada vez mais ornamental, língua de Camões, aproxima-se. O homem, perdido, pergunta em inglês se está no caminho certo para Évora. Os compadres, fiéis ao seu mutismo, trocam olhares e encolhem os ombros. O turista tenta o francês. Nada. O espanhol. Nada. Três línguas, zero respostas. Derrotado, arranca estrada fora.
Algum tempo depois, um dos compadres quebra o silêncio:
— Ó compadre, vossemecê não acha que agora, estando nós na União Europeia, devíamos aprender uma língua estrangeira?
O outro, sem hesitar:
— Pra quê, compadre? Aquele sabia logo três… e vossemecê acha que lhe serviu de alguma coisa?
E é aqui que o ECOC Echo encontra o seu eco mais profundo — não nos relatórios de impacto, mas nos silêncios que escapam às métricas. Porque entre os fóruns de stakeholders e os quadros de sinergias, há uma Europa que se constrói com encolheres de ombros: gestos mínimos, mas eloquentes. Uma Europa que proclama o multilinguismo como valor fundador, mas se pronuncia em inglês — língua oficial de país nenhum no seio da União. Onde a diversidade linguística se celebra em brochuras e apresentações, mas se dissolve na prática institucional. Onde a cultura se dinamiza em jargão técnico, mas se vive em silêncio partilhado, entre pedras, sombras e olhares que não precisam de tradução.
Que pensarão os ilustres stakeholders da matéria? Talvez se encantem com o folclore da cena. Talvez se preocupem com a eficácia comunicacional. Ou talvez — e aqui reside a ironia — não entendam nada. Porque, afinal, saber três línguas não garante que se seja compreendido. E saber nenhuma pode ser a forma mais pura de resistir à pressa do mundo.
Talvez seja esse o verdadeiro património imaterial: o direito ao silêncio, à sombra e ao encolher de ombros — sem tradução simultânea.
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