Uns recebem apoio social. Outros vivem de subsídios. Uns manifestam-se. Outros causam distúrbios. Uns têm dúvidas legítimas. Outros espalham desinformação. Uns são refugiados. Outros, imigrantes ilegais. Uns, jovens em risco. Outros, delinquentes. Uns são cidadãos. Outros, casos.
Estas distinções não são neutras. A linha que separa cada par não é feita de factos, mas de palavras — e de poder. A linguagem molda a forma como vemos o mundo: define quem é vítima e quem é ameaça, quem merece compaixão e quem deve ser rejeitado ou punido. Não descreve apenas a realidade. Constrói-a.
Este léxico enviesado atravessa fronteiras, classes sociais e trincheiras ideológicas. Serve para validar uns e desumanizar outros. Transforma desigualdade em merecimento, revolta em desordem, crítica em perigo público.

Jurista
As palavras não são apenas etiquetas. São armas. Armas simbólicas, mas eficazes. Determinam políticas, modelam consensos, sustentam injustiças
Veja-se, por exemplo, a linguagem usada nos noticiários sobre o conflito israelo-palestiniano. O Hamas “liberta reféns”. Israel “liberta prisioneiros palestinianos”. A semântica parece clara: reféns são inocentes, vítimas de sequestro, símbolos de sofrimento e urgência. Prisioneiros, por sua vez, evocam julgamento, sentença, culpa. Mas e se muitos desses “prisioneiros” forem mulheres e crianças, detidas sem acusação formal, sem julgamento, sem defesa possível? Não serão também reféns — não de um grupo armado, mas de um sistema que os prende por serem quem são?
Israel mantém milhares de palestinianos sob detenção administrativa, um regime que permite manter alguém preso indefinidamente, sem necessidade de acusação ou julgamento. Quando estas pessoas são libertadas, raramente se lhes reconhece estatuto de vítima. O vocabulário não lhes concede esse direito.
Esta escolha de palavras não é acidental. É um exercício de poder. A linguagem é usada como bisturi ideológico: separa os “bons” dos “maus”, os “nossos” dos “outros”. Uns são “ativistas”. Outros, “agitadores”. Uns praticam “ação direta”. Outros cometem “vandalismo”. Uns protegem a ordem pública. Outros reprimem o direito à indignação. O mesmo gesto muda de nome consoante quem o executa — e quem o narra.
Mesmo fora do campo de batalha, a semântica opera com astúcia. No discurso económico, por exemplo, há “cidadãos empreendedores” e “beneficiários dependentes”, como se houvesse um mérito inato em ser bem-sucedido — e uma culpa implícita em ser vulnerável.
As palavras não são apenas etiquetas. São armas. Armas simbólicas, mas eficazes. Determinam políticas, modelam consensos, sustentam injustiças. Quando a linguagem disfarça a violência, normaliza-a. Quando silencia a complexidade, perpetua estigmas.
Não é apenas uma questão de estilo. É uma questão de ética — e de responsabilidade. Importa perguntar:
Quando dizemos “refugiado”, estamos a acolher ou a excluir?
Quando dizemos “prisioneiro”, estamos a informar ou a julgar?
Quando falamos dos outros, o que diz a nossa linguagem sobre nós?
Porque antes de qualquer confronto de ideias, trava-se uma guerra menos visível, mas igualmente feroz: a guerra das palavras.
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