Convém começar por lembrar que o protagonista desta história não era um recém-chegado. Já tinha sido o timoneiro do partido anos antes, até que decidiu afastar-se e entregar-se a um silêncio tão prolongado que muitos militantes chegaram a suspeitar que tivesse ido meditar para um mosteiro tibetano. Durante esse interregno, o partido habituou-se à sua ausência com a mesma naturalidade com que se ignora um eletrodoméstico na arrecadação: sabe-se que existe, mas ninguém arrisca ligá-lo à corrente.
Quando regressou à ribalta, não foi com fanfarra. Corria então pelos corredores do partido a ideia de que a sua candidatura era mais ou menos como um bolo feito sem fermento: simpático, mas não ia crescer.
Mas o país, que às vezes gosta de contrariar o guião, começou a prestar atenção. Primeiro com o mesmo cuidado com que se cheira um iogurte perto do prazo, depois com curiosidade genuína, e finalmente com aquele entusiasmo moderado que os portugueses dedicam às coisas que não exigem grande esforço nem provocam discussões no almoço de domingo. A candidatura começou a ganhar cor — não muita, mas o suficiente para deixar o aparelho desconfortável.

Jurista
Enquanto muitos eleitores viam no candidato alguém que avançara por conta própria, o aparelho via apenas um novo meio de transporte para continuar a circular pelas avenidas do poder
Foi então que o aparelho se mexeu. Não por convicção, claro, mas porque ouviu um barulho vindo das sondagens e pensou que era o alarme de incêndio. De repente, onde antes havia silêncio, surgiram elogios; onde havia sobrancelhas levantadas, apareceram palmadinhas nas costas tão sincronizadas que pareciam coreografadas. Alguns dos novos entusiastas eram os mesmos que, dias antes, explicavam com ar professoral que aquilo não ia a lado nenhum. Agora, porém, garantiam que sempre tinham acreditado — só estavam à espera do “momento certo”, esse conceito tão útil para justificar tudo.
O candidato, que começara como figurante, transformou-se num protagonista por obra e graça da matemática das sondagens. Passou a ser descrito como “promissor”, “sólido”, “uma aposta segura” — expressões que o aparelho guarda num armário e usa conforme a meteorologia política. Não tinham mudado de opinião; tinham mudado de direção, como quem vira o mapa ao contrário e decide que afinal sempre quis ir para ali.
Quem conhece o mundo partidário não se espanta. O aparelho move-se como certos peixes tropicais: muda de cor conforme a luz, não por estética, mas por sobrevivência. Não pensa; ajusta-se. Não lidera; segue. E, acima de tudo, detesta ficar para trás — mesmo que para isso tenha de correr com a dignidade a cair-lhe dos bolsos.
Assim, enquanto muitos eleitores viam no candidato alguém que avançara por conta própria, o aparelho via apenas um novo meio de transporte para continuar a circular pelas avenidas do poder. E, como tantas vezes entre nós, a política fez-se menos de ideias e mais de ginástica — daquela flexibilidade extraordinária que permite a todos, no fim do dia, jurar que sempre estiveram no lugar certo, mesmo que tenham chegado lá de marcha-atrás.»
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