Há decisões que, sendo simples, revelam com clareza a alma humana. Tomemos, por exemplo, a cena prosaica de um jantar entre amigos. Alguém — há sempre um mais expedito — ergue a voz e lança a pergunta fatídica: “Tinto ou branco?” A partir desse instante, a mesa transforma-se num pequeno parlamento etílico: de um lado, os defensores do tinto, com a convicção dos cruzados; do outro, os partidários do branco, serenos e altivos, como quem já nasceu com uma garrafa fresca na mão.
E depois há os outros. Os abstencionistas vínicos. Os que, com um sorriso de superioridade quase filosófica, respondem: “Eu gosto dos dois.” Não se comprometem com cor nem corpo. Flutuam acima da refrega, como sábios de guardanapo ao colo. Afinal, há algo de confortável em não escolher — sobretudo quando se bebe bem de qualquer modo.

Jurista
E assim se brinda à democracia: com um gesto que não é voto, mas também não é silêncio. Um gole de indecisão, servido à temperatura ambiente da conveniência
Ora, a abstenção também encontra moradas mais solenes, como a Assembleia da República. Aqui, a escolha já não é entre castas vinícolas, mas entre caminhos que moldam a economia e a vida de milhões. E, contudo, com a leveza de quem escolhe entre mousse de maracujá e tarte de amêndoa, há quem anuncie já, com ar de quem faz um sacrifício, que irá abster-se na votação do Orçamento de Estado. Não é indecisão — é exigência. Não é fuga — é estratégia. Não é voto — é mise en scène.
Ainda mais requintado: não se trata de uma abstenção qualquer. É uma “abstenção exigente” — fórmula alquímica da política moderna: soa bem, impressiona o ouvido e, sobretudo, não compromete. Uma expressão tão sofisticada que poderia figurar num cardápio de fino jantar, entre o carpaccio de convicções e o crème brûlée de conveniências, servida com redução balsâmica de responsabilidade, espuma de indecisão e crocante de retórica tostada.
Mas afinal, o que será uma “abstenção exigente”? Votar com ar grave — como quem salva a Pátria através do silêncio performativo? Um número de prestidigitação parlamentar, em que não se diz sim, nem não, mas se faz pose de quem segura o Orçamento com a ponta dos dedos? Um gesto tão exigente que exige apenas uma coisa: que ninguém exija nada. Como quem não entra no jogo, mas exige medalha de participação.
A “abstenção exigente” é apenas a entrada. O prato principal é o espetáculo da relevância fingida — deputados que se abstêm com tal intensidade que quase se ouve o eco do seu silêncio nos corredores do poder. Não votam, mas fazem saber que poderiam ter votado. Não decidem, mas exigem que se reconheça o seu papel decisivo na indecisão. É a arte de estar presente sem se comprometer, como quem aparece num casamento só para comer os canapés e sair antes da troca de alianças.
E há todo um ritual: comunicados solenes, entrevistas com sobrancelhas arqueadas, declarações em tom de sacrifício patriótico. “Abstivemo-nos, mas com exigência.” Como quem diz: não fizemos nada, mas fizemo-lo com grande esforço. É o nirvana da política líquida — onde a firmeza é opcional, mas o marketing é obrigatório.
Dir-se-ia que a “abstenção exigente” resolveu, enfim, um problema milenar: a quadratura do círculo. Uma proeza que nem Pitágoras ousou tentar e que deixaria o mais experimentado sommelier com inveja — porque conseguir dar sabor a um copo vazio é, de facto, um talento raro. Um paradoxo digno de prémio — talvez não Nobel, mas certamente um troféu de cristal legislativo.
No fundo, esta abstenção “exigente” é a versão institucional do célebre “tanto me faz”, desde que o copo se mostre cheio, dos jantares de amigos. Só que, em vez de decidir entre tinto e branco, decide-se o rumo do país. E nós, espetadores e contribuintes, ficamos a assistir, entre goles e impostos, a este teatro de subtil delicadeza: o ato político de não escolher — erguido, contudo, à categoria de virtude. Um espetáculo servido em copo de cristal, com bouquet de retórica, taninos de ambiguidade e final seco de consequência.
E assim se brinda à democracia: com um gesto que não é voto, mas também não é silêncio. Um gole de indecisão, servido à temperatura ambiente da conveniência.
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