Há dias em que Lisboa parece caótica e a pedir rumo. Foi o que sucedeu no Rossio, onde, entre tendas improvisadas e a inquietação de quem descobriu que trabalhar não chega para pagar a renda de uma casa, apareceu um cidadão disposto a corrigir as prioridades do país. Não trazia soluções para a habitação, nem propostas para aumentar salários, nem sequer um colchão para distribuir. Trazia uma bandeira. E, aparentemente, isso bastava para se considerar útil à Humanidade.
O espetáculo tinha qualquer coisa de comovente. Enquanto uns tentavam explicar coisas banais do tipo como se sobrevive sem teto, outros surgiam para explicar como se salva a civilização. Os primeiros tinham problemas concretos; o segundo tinha um estandarte. É uma diferença importante: os problemas concretos exigem trabalho, dinheiro e decisões políticas. Um estandarte exige apenas um mastro, um braço levantado e a convicção inabalável de que se está do lado certo da História.
O nosso recém-chegado ativista da geopolítica não parecia particularmente preocupado com a possibilidade de alguém passar mais uma noite ao relento. A sua missão era outra: restabelecer a simetria das bandeiras e, com ela, segundo parece, o equilíbrio moral do universo. Se havia símbolos palestinianos, impunha-se que aparecesse um símbolo israelita. É como se a tragédia humana se resumisse a um design urbano e a justiça dependesse apenas de uma foto com as cores bem distribuídas, garantindo a apresentação de um equilíbrio cromático.
É uma venerável e muito prática conceção de democracia. Se um lado protesta, o outro também tem o direito de o fazer. Se alguém denuncia uma injustiça, outro alguém deve comparecer para contestar a denúncia. E se, por azar, houver pessoas a dormir na rua, talvez se possa organizar uma sessão pública sobre o Médio Oriente, desde que ninguém insista em falar de rendas. A miséria, como se sabe, torna-se particularmente desagradável quando interrompe uma discussão entre pessoas convencidas de que estão a tratar dos grandes assuntos da humanidade.
Não está em causa o direito de um cidadão empunhar a bandeira que entender, dentro dos limites da lei. Esse direito existe, e ainda bem. O que não existe é uma cláusula constitucional que obrigue os restantes cidadãos a aplaudir, a concordar ou a fingir que todos os símbolos chegam ao espaço público sem passado, sem contexto e sem consequências. A liberdade protege a expressão; não concede imunidade à crítica. Quem confunde as duas coisas não está a defender a democracia: está a tentar transformá-la num serviço de lavandaria ideológica.
Basta introduzir o símbolo na máquina, selecionar o programa de lavagem “Liberdade de Expressão” e aguardar. Ao fim de quarenta minutos, sai limpo de História, de controvérsia e de qualquer responsabilidade política. O fabricante garante resultados impecáveis. A única condição é não ler as instruções.
Aplicado à vida pública, este princípio promete um futuro fascinante. Poderíamos organizar, na cosmopolita praça do Rossio, uma feira internacional de convicções, com um pavilhão para cada espécie de nostalgia autoritária. Haveria visitas guiadas, bancas de merchandising e sessões de esclarecimento sobre a natureza inofensiva dos emblemas, desde que empunhados com grande solenidade. À entrada, um funcionário distribuiria folhetos explicativos: “Não julgue o símbolo; admire a liberdade de quem o trouxe.” A História ficaria encarregada da bilheteira.
Naturalmente, nem todos os símbolos têm o mesmo significado, nem todas as causas podem ser colocadas no mesmo plano. É precisamente por isso que pensar é mais trabalhoso do que contar bandeiras. O problema começa quando a liberdade de expressão é invocada como um passe universal, capaz de dispensar a análise dos factos, o conhecimento do passado e a avaliação daquilo que se pretende legitimar. A democracia não se fortalece quando suspendemos o juízo; apenas se robustece quando recusamos entregar o juízo a quem grita mais alto ou segura um objeto com mais convicção.
Mas voltemos ao Rossio, que é onde a comédia adquire a sua dimensão mais à portuguesa.
Temos um país em que a habitação se tornou um exercício de ficção financeira, em que muitos trabalhadores recebem o salário para o entregar quase integralmente ao senhorio e em que os jovens são aconselhados a não serem egoístas e a ter paciência com pessoas que já compraram casa quando uma casa ainda era um lugar para morar. E, no meio disto, a grande urgência política parece ser a necessidade de um cidadão esclarecer o espaço público acerca da distribuição correta dos símbolos internacionais.
É difícil não admirar a escolha das prioridades. Há quem veja uma pessoa a dormir numa tenda e pense que o Estado falhou. Há quem a veja e se pergunte se o alinhamento ideológico do acampamento estará devidamente atualizado. São duas formas de olhar para a pobreza: uma procura saber por que razão ela existe; a outra procura saber se está a ser pobre da maneira certa.
A segunda tem a vantagem de ser muito menos exigente. Não obriga a construir casas, a rever políticas públicas, a enfrentar interesses económicos ou a explicar por que motivo há habitações vazias ao lado de pessoas sem abrigo. Basta aparecer com uma bandeira, declarar-se defensor da liberdade e aguardar que alguém lhe reconheça o mérito de ter vindo de longe para ensinar os indígenas a pensar.
E há sempre quem reconheça. Os profissionais da indignação seletiva são uma espécie resistente, habituada a descobrir monumentais ameaças de “caos” nos assuntos que lhes convêm e a revelar uma serenidade quase monástica diante dos problemas que exigiriam alguma ação. Defendem o direito de falar com entusiasmo, mas ficam menos entusiasmados quando alguém responde. Para eles, a liberdade é uma avenida de sentido único: circulam à vontade, desde que os outros não se lembrem de atravessar.
Talvez seja esta a grande inovação política do nosso tempo: a substituição da responsabilidade pelo posicionamento. Já não importa tanto aquilo que se faz, mas a bandeira sob a qual se declara que se faria. A casa pode faltar, o salário pode desaparecer, a pobreza pode alastrar; desde que a fotografia revele o símbolo certo, a consciência pública recebe um carimbo de conformidade.
Proponho, por isso, que a Câmara Municipal de Lisboa modernize a oferta cultural do Rossio. Que faça um festival permanente de bandeiras, com programação diária, patrocínios internacionais e transmissão televisiva. Cada participante terá direito a um mastro, quinze minutos de indignação e uma entrevista sobre os destinos do Ocidente “em decadência e com fracos líderes”. Para os sem-abrigo, haverá uma zona reservada, discreta, afastada das câmaras, com acesso condicionado e regulamento próprio. A inscrição exigirá prova de residência, naturalmente – documento que os candidatos poderão obter assim que tiverem uma.
Na cerimónia de encerramento, uma comissão de especialistas proclamará a vitória da liberdade, da tolerância e do pluralismo. Seguir-se-á um minuto de silêncio pelas pessoas que continuam a dormir na rua. O minuto poderá ser prolongado, se necessário, mas não demasiado: há sempre outra polémica a começar e os estúdios têm horários a cumprir. Por certo que não poderão perder os últimos lances de Ronaldo.
No dia seguinte, a majestosa praça do Rossio regressará à sua normalidade. As tendas continuarão a disputar espaço à cidade, as rendas continuarão a disputar espaço aos salários e os cidadãos continuarão a descobrir que a dignidade humana não é dedutível no IRS. A bandeira talvez já tenha partido, levando consigo a satisfação de quem cumpriu uma missão histórica. Os que ficaram terão de resolver o problema mais modesto de encontrar onde passar a noite.
No fundo, é esta a hierarquia nacional: para discutir o destino do mundo, basta chegar com convicção; para conseguir um teto, é preciso demonstrar rendimentos, apresentar garantias, reunir documentos e convencer alguém de que se merece uma oportunidade.
A bandeira entra sem fiador. O pobre precisa de provar que existe.
Afinal, neste país, onde a pobreza é assunto comezinho, quem não possuir casa terá que demonstrar que reúne condições para ser merecedor da rua.
E depois há quem ainda se admire de a democracia ter tão boa imprensa e tão poucos metros quadrados disponíveis.















