Houve um tempo em que acreditávamos que o telefone e a internet eram criaturas sem rugas, sem passado e, sobretudo, sem malícia. A tecnologia apresentava-se-nos com aquele ar asseado, próprio das coisas novas que ainda não passaram pelas mãos da experiência: prometia aproximar continentes, abolir distâncias, democratizar o conhecimento e, se não acabasse com a estupidez humana, era pelo menos de esperar que lhe diminuísse o campo de ação. Estávamos, pois, diante de uma dessas facetas do utopismo tecnológico, com a diferença de que, desta vez, o progresso vinha acompanhado de um ecrã táctil, um carregador e uma mensalidade.
Não nos ocorreu, nessa euforia relativamente ao avanço tecnológico, que a distância, além de separar os homens, também os protege. Entre o desejo de enganar e a possibilidade de o executar havia outrora um caminho, por vezes longo, que obrigava o vigarista a sair de casa, a escolher a vítima, a ensaiar a mentira e a suportar o risco de um encontro desagradável. A modernidade, sempre generosa para com quem não aprecia trabalhos desnecessários, suprimiu-lhe essas fadigas. Hoje, o patife pode ficar sentado, diante de um computador, e lançar a sua rede sobre milhares de incautos. A civilização poupou-lhe as pernas e a inteligência artificial o engenho.
E eis-nos chegados a uma situação em que atender o telefone tornou-se um ato absolutamente temerário. Abrir o correio eletrónico já exige, em certos dias, a preparação psicológica de quem vai depor perante um juiz. Antes de responder a uma chamada, o cidadão obriga-se a proceder a uma investigação preliminar, avaliando indícios, examinando suspeitos. Quem será? Que pretenderá? Por que razão me procura? E, sobretudo, que lucro espera obter com a minha desgraça?
A tecnologia aproximou-nos tanto que hoje podemos ser enganados por pessoas que nunca vimos, nunca veremos. É uma forma superior de intimidade: o desconhecido entra-nos em casa, conhece-nos a voz, sabe o nosso número e, se tiver os recursos adequados, pode até falar-nos com a voz de um filho. O progresso tem destas bizarrias.
O telefone toca. E nós, em vez de experimentarmos a natural curiosidade de saber quem nos chama, sentimos o sobressalto de quem ouve passos no corredor durante a noite. Será a filha, aflita, a precisar de dinheiro? Ou será um cavalheiro de identidade incerta, vocação duvidosa e escrúpulos em parte incerta, que descobriu na nossa afeição uma oportunidade de negócio?
A fraude moderna compreendeu uma coisa que escapou a muitos tratados sobre a natureza humana: o homem pode desconfiar de um estranho, mas hesita em desconfiar de quem ama. E é nessa hesitação, entre o afeto e o juízo, que o burlão se instala. Já não precisa de arrombar a porta; basta-lhe imitar a voz de quem tem a chave da casa.
Um familiar meu devolveu uma chamada perdida, movida por essa curiosidade elementar que ainda nos leva a querer saber quem nos procura. Pagou caro. A chamada era, afinal, uma armadilha com despesas de expediente. O episódio tem a simplicidade das pequenas tragédias domésticas: uma pessoa atende, ou devolve uma chamada, porque supõe que do outro lado existe alguém; do outro lado está lá, de facto, alguém que fez da ausência de escrúpulos um meio de subsistência.
A velha vigarice, que outrora carecia de um bilhete de identidade falso, de alguma lábia e de uma certa disposição para o risco, descobriu as virtudes da comunicação digital. Não se tornou mais inteligente, mas apenas mais cómoda. E a comodidade, como sabemos, é uma das grandes conquistas do género humano, sobretudo quando permite que uns vivam à custa dos outros sem terem de lhes olhar para a cara.
Na caixa de entrada, o espetáculo é ainda mais edificante. Surgem cobranças de dívidas que não contraímos, avisos judiciais de processos que desconhecíamos, ameaças de multas, notificações das Finanças, mensagens atribuídas à Polícia Judiciária, tudo envolto na solenidade de uma repartição pública e na caligrafia duvidosa de um falsificador com ambições administrativas. Os logótipos são copiados com zelo, os brasões reproduzidos com fervor patriótico, as ameaças redigidas numa linguagem que parece ter sido retirada de um regulamento e depois traduzida por alguém que nunca conheceu a língua escrita.
O burlão sabe que o cidadão, quando vê um selo, um emblema ou a palavra “tribunal”, fica diminuído na sua capacidade de raciocínio e aumenta o seu nível de submissão. O poder, mesmo que circunscrito a uma imagem mal recortada, conserva sobre nós uma autoridade quase hipnótica. A fraude não precisa de possuir a Justiça; basta-lhe vestir-lhe a toga. E, se o cidadão treme, tanto melhor: o medo é um funcionário diligente, não exige salário e é muito raro que peça esclarecimentos.
A Justiça, que deveria ser o lugar onde a verdade se distingue da impostura, é convocada para representar uma farsa. A polícia serve de máscara ao ladrão, o tribunal empresta o seu nome ao extorsionário e o Estado, que tantas vezes exige ao cidadão documentos de prova, vê a sua própria identidade reproduzida por quem não é ninguém. Há aqui uma ironia que mereceria a atenção de um moralista: para enganar o cidadão, o vigarista apropria-se das instituições em que o cidadão deveria poder confiar.
E o cidadão, esse, fica entregue a si mesmo. Aprende a desconfiar do tribunal, da polícia, das Finanças e, por fim, do próprio telefone. Talvez que o Estado já não se lhe configure a pessoa de bem que terá sido. A suspeita, que deveria ser uma precaução ocasional, transforma-se num hábito; o hábito, numa disposição de espírito; e a disposição de espírito, numa espécie de cidadania defensiva em que cada um vive atrás da sua pequena muralha eletrónica, receando que o próximo toque constitua uma tentativa de assalto.
Mas é ao olhamos para os grandes senhores da tecnologia que a comédia adquire proporções monumentais.
Para vender-nos um produto, a tecnologia possui uma memória admirável: sabe o que procurámos, aquilo em que parámos o olhar, os lugares que visitámos e até as pequenas inclinações que julgávamos guardar em segredo. É um empregado de quarto de uma dedicação extraordinária. Quando chega, porém, a hora de proteger-nos, o prodigioso empregado parece sofrer uma indisposição. A inteligência recolhe-se, os algoritmos ficam meditativos e a máquina, que há instantes nos conhecia os desejos, mostra-se incapaz de reconhecer a fraude que ameaça a nossa conta bancária. Para vender, a memória é infalível; para defender, padece de amnésia. É como se o progresso tivesse sido dotado para localizar clientes e de uma miopia incurável para detetar vigaristas.
Dir-se-á, com razão, que os criminosos também aprendem, adaptam-se e encontram maneiras de contornar as defesas. Não se exige à tecnologia a omnipotência, atributo que nem os seus departamentos de marketing parecem ainda ter coragem de anunciar em letras garrafais. Exige-se, isso sim, que a segurança não seja tratada como um luxo suplementar, que o cidadão tem de contratar depois de comprar o aparelho.
Se os dispositivos e as plataformas se tornaram indispensáveis à vida quotidiana, a proteção dos seus utilizadores não pode ser considerada uma extravagância opcional. Não basta vender a velocidade como progresso, a conveniência como liberdade e a conectividade como uma espécie de redenção universal, deixando depois o cidadão entregue a si próprio na tarefa de distinguir, entre dezenas de mensagens, a comunicação legítima da armadilha. Seria como vender automóveis sem travões e oferecer, por uma módica quantia adicional, um curso de sobrevivência rodoviária.
O que está em causa não é apenas uma falha técnica. É uma curiosa distribuição de responsabilidades, muito característica do nosso tempo. Quando a inovação produz lucros, há empresas, conferências, prémios e discursos sobre o futuro. Quando os seus riscos atingem o cidadão, surgem os avisos, as condições gerais, os regulamentos e as letras miúdas. O mérito tem sempre um proprietário; a culpa, quando aparece, prefere o anonimato.
O utilizador, que não desenhou os sistemas nem conhece os seus mecanismos, recebe a incumbência de os vigiar. Deve desconfiar dos números desconhecidos, verificar os endereços eletrónicos, confirmar a identidade de quem telefona, suspeitar dos anexos, não carregar nas ligações, não divulgar códigos, não acreditar em urgências e, se possível, não acreditar em nada. A modernidade entrega-lhe uma ferramenta extraordinária e, com a outra mão, um manual de instruções para evitar que a ferramenta o destrua.
É admirável esta conceção de progresso, segundo a qual as empresas ficam com a inovação e o cidadão com a ansiedade. Como se o grande destino da humanidade fosse transformar cada reformado num perito em cibersegurança e cada trabalhador num inspetor de mensagens suspeitas.
Há, aliás, uma pergunta que deveria inquietar os entusiastas do progresso: por que razão as instituições públicas, que nos convocam por carta, nos notificam por escrito e nos exigem uma exatidão quase litúrgica no cumprimento dos seus procedimentos, parecem tantas vezes tão difíceis de alcançar quando somos nós a precisar de falar com elas? Será que a suspeita generalizada também serve de pretexto para o silêncio administrativo? Ou teremos chegado à situação, verdadeiramente sublime, em que a tecnologia consegue enviar-nos uma cobrança, mas não consegue assegurar que um cidadão fale com uma pessoa quando disso necessita?
Não se trata de afirmar que todas as repartições públicas recusam o atendimento telefónico, nem de ignorar as diferenças entre serviços. Trata-se de reconhecer o absurdo de um mundo em que a comunicação é celebrada como uma conquista universal, mas o contacto humano se torna, em tantas circunstâncias, um privilégio difícil de obter.
Entretanto, o medo vai fazendo o seu trabalho, sem necessidade de concurso público nem de nomeação oficial. No outro dia, por receio de uma burla, não atendi uma chamada legítima destinada a uma consulta. Do outro lado não estava um criminoso a preparar uma extorsão, mas alguém que procurava estabelecer um contacto necessário. Eu, que desejava apenas evitar uma fraude, acabei por fechar a porta a uma comunicação desejada.
O episódio não será digno de um drama. Não houve perseguições, tribunais nem fortunas perdidas. Mas a vida quotidiana é feita destas pequenas ocorrências, e é nelas que por vezes se revela o verdadeiro custo das coisas. A fraude não me levou dinheiro, mas a disponibilidade para responder. Fez-me hesitar perante uma chamada que poderia ser importante. Transformou a prudência em obstáculo e a defesa em impedimento.
É aqui que a questão se torna mais séria. O dano causado pelos burlões não se mede apenas pelo dinheiro que conseguem retirar das contas bancárias. Mede-se também pelo que conseguem retirar das relações humanas: a espontaneidade, a confiança, a liberdade de responder sem receio. Mesmo quando falham o roubo, alcançam uma vitória mais discreta. Deixam-nos desconfiados do médico, do amigo, do filho, de quem quer que apareça no ecrã com a pretensão de comunicar connosco.
A suspeita começa por ser sensata. Ninguém deseja ser enganado duas vezes, e a ingenuidade não é uma obrigação moral. Mas, quando a suspeita se instala em permanência, acaba por se tornar uma espécie de polícia interior, revistando todos os que se aproximam, incluindo aqueles que nada têm a esconder. A fraude consegue assim um prodígio: mesmo quando não nos rouba, modifica-nos. O criminoso pode desaparecer, mas deixa o medo instalado em nós com a familiaridade de um parente incómodo que nunca anuncia a visita e nunca mais se vai embora.
Não seria sensato, evidentemente, regressar à ingenuidade de outros tempos, como se o passado tivesse sido uma idade de ouro povoada de pessoas honestas. Sempre houve impostores, vigaristas e vendedores de ilusões. O que mudou foi a escala, a velocidade e a sua capacidade de reprodução. A fraude deixou de depender tanto da presença física e passou a beneficiar de instrumentos que multiplicam o seu alcance. A costumeira vigarice, que precisava de voz, rosto e alguma habilidade de representação, encontrou uma indústria capaz de lhe fabricar milhares de rostos e de vozes.
A inteligência artificial, que tanto poderia servir para proteger, esclarecer e facilitar a vida, afinal também pode ser usada para o aperfeiçoamento da impostura. O problema não reside na máquina, mas nos interesses humanos que a orientam e nas responsabilidades que se preferem deixar por assumir. A técnica, só por si, não absolve ninguém; pelo contrário, quanto maior é o poder de transformar a realidade, maior deveria ser o dever de responder pelas consequências dessa transformação.
Talvez o progresso merecesse, por isso, uma pequena revisão dos seus critérios de avaliação. Em vez de nos perguntarmos apenas quantas operações uma máquina consegue executar por segundo, talvez questionar quantas fraudes consegue impedir, quantas pessoas consegue proteger e quanta confiança ajuda a conservar. Em vez de medir a modernidade pela velocidade com que uma mensagem chega ao destinatário, talvez devêssemos medi-la também pela tranquilidade com que esse destinatário a pode receber.
Porque de pouco serve comunicar instantaneamente se a comunicação chega envolta em suspeita. De pouco serve encurtar as distâncias se, no fim, o cidadão tem medo de atravessá-las. E de pouco serve celebrar uma inteligência cada vez mais poderosa se a vida quotidiana exige de nós uma vigilância cada vez mais exaustiva.
Sempre que o telefone toca, somos obrigados a convocar uma pequena comissão de inquérito dentro da nossa cabeça.
E assim, depois de tantos séculos civilizacionais, de tantas descobertas e eloquentes promessas de futuro, regressámos a uma forma rudimentar de vida: desconfiamos de quem bate à porta, mesmo quando a porta é apenas um telefone.
E o telefone, que nasceu para nos aproximar, tornou-se um pequeno objeto de suspeição, onde cada chamada traz consigo uma pergunta e cada silêncio pode ser uma defesa, um modo de sobrevivência às conquistas civilizacionais.
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