Há épocas em que a humanidade avança com a convicção de quem acredita ter um destino. E há outras — como a nossa — em que cada passo revela apenas o vazio que tentamos disfarçar. Não é que o mundo tenha enlouquecido; é que o absurdo ganhou palco, luzes e transmissão permanente. O que antes era ruído tornou‑se espetáculo.
Vivemos num tempo em que a aparência substituiu a substância. Já não se exige pensamento, apenas presença; já não se pede responsabilidade, apenas pose. A política transformou‑se numa sucessão de personagens que parecem saídas de uma peça escrita à pressa — e, no entanto, são reais porque nós as legitimamos.
No centro desta ópera bufa ergue‑se o Governante Narcísico, que confunde o Estado com o espelho onde tenta fixar a própria imagem. Não governa: encena. Para ele, o povo não é um conjunto de cidadãos livres, mas uma plateia encarregada de confirmar a ficção que construiu sobre si. É a tentativa de reduzir o mundo ao próprio reflexo.

Jurista
Vivemos num tempo em que a aparência substituiu a substância. Já não se exige pensamento, apenas presença; já não se pede responsabilidade, apenas pose
Ao seu lado, o Ministro Sofista, especialista na arte de falar para não dizer. Cada frase é uma fuga, cada explicação uma cortina de fumo. A linguagem, que deveria revelar, tornou‑se instrumento para adiar o real. É a má‑fé transformada em método.
E no coro, repetindo a melodia da conveniência, surgem os Deputados de Platão às Avessas. Não guardam a razão, mas a tendência. Não defendem ideias, mas a tranquilidade de não pensar. São a prova de que a recusa da liberdade pode ser confortável — e até rentável.
A plateia — nós — assiste com uma mistura de náusea e resignação. Talvez porque reconhecemos que esta comédia trágica não é apenas obra dos atores, mas também do público que prefere o conforto da passividade à angústia da responsabilidade. O abismo político devolve‑nos o olhar porque fomos nós que o escavámos.
Ainda assim, continuamos à espera de líderes sábios, como se a lucidez pudesse emergir espontaneamente de um cenário construído para evitá‑la. A decadência não chega de repente; instala‑se devagar, disfarçada de normalidade. Um dia percebemos que a ópera se tornou circo — e que os palhaços não são os intérpretes, mas os diretores.
Resta‑nos a consciência do absurdo. Ela não resolve, mas desperta. Quando a sátira se torna indistinguível da realidade, talvez seja sinal de que já não podemos fingir. A lucidez dói, mas é o primeiro passo para recuperar a liberdade que delegámos.
Até lá, seguimos olhando — não por impotência, mas porque encarar o absurdo é, paradoxalmente, o início da superação.
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