O mosquito capaz de transmitir doenças como dengue, chikungunya, Zika e febre-amarela voltou a alargar a sua presença em Portugal. Em 2025, o Aedes albopictus foi identificado em 28 concelhos, mais 10 do que no ano anterior, de acordo com o relatório REVIVE, divulgado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.
Os novos dados mostram que a espécie chegou também a Lisboa, Oeiras, Almada e Sesimbra, além de ter alargado a presença na região Centro aos concelhos de Condeixa-a-Nova e Covilhã. A vigilância foi feita em 243 concelhos, com a participação das cinco regiões de saúde do continente e da Direção Regional de Saúde da Madeira.
Presença tem vindo a crescer desde 2017
A identificação deste mosquito invasor em território nacional não é recente, mas a sua expansão tem sido progressiva. O Aedes albopictus foi detetado pela primeira vez em Portugal em 2017, na região Norte. No ano seguinte surgiu no Algarve, chegou ao Alentejo em 2022, à região de Lisboa em 2023 e ao Centro em 2024.
Em 2025, a espécie já estava presente em 28 concelhos, confirmando o alargamento da sua distribuição geográfica. A informação ganha relevância por se tratar de um vetor com capacidade para transmitir agentes etiológicos associados a doenças como dengue, Zika e chikungunya.
Ainda assim, a presença do mosquito não significa, por si só, que exista transmissão dessas doenças em todos os locais onde foi encontrado. O que os dados mostram é a expansão de um vetor que obriga a vigilância continuada, sobretudo em zonas urbanas e em áreas onde as condições ambientais favorecem a sua presença.
Dengue continua a preocupar a nível internacional
A dengue é uma infeção viral transmitida por mosquitos e continua a ter forte expressão em várias regiões do mundo, sobretudo em zonas tropicais e subtropicais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a doença tem vindo a espalhar-se para novas áreas, incluindo regiões da Europa e do Mediterrâneo Oriental. Já o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças indicava que, desde o início de 2026 e até 23 de março, tinham sido reportados mais de 500 mil casos de dengue e mais de 100 mortes a nível global, um cenário que ajuda a explicar a atenção crescente dada à vigilância de espécies invasoras como o Aedes albopictus.
Mais de 44 mil mosquitos identificados
No total, o relatório indica que foram identificados 44.123 mosquitos de 22 espécies, além de 48.503 ovos de espécies invasoras. A recolha destes dados faz parte da Rede de Vigilância de Vetores, que tem como objetivo acompanhar a atividade de mosquitos, carraças e outros insetos com importância em saúde pública.
Segundo a mesma fonte, a pesquisa de flavivírus e alfavírus patogénicos para o ser humano foi negativa na maioria das amostras analisadas. A exceção surgiu na Madeira, onde foi detetado vírus dengue serótipo 2 em amostras de Aedes aegypti, outra espécie invasora presente naquela região autónoma desde 2005.
Este dado não diz respeito ao Aedes albopictus no continente, mas reforça a importância da vigilância entomológica em todo o país, sobretudo num contexto em que diferentes espécies invasoras têm vindo a aumentar a sua distribuição.
Carraças e flebótomos também foram analisados
O relatório REVIVE não se limita aos mosquitos. Em 2025, foram identificadas 6.612 carraças, tendo parte das amostras analisadas revelado presença de bactérias dos géneros Borrelia e Rickettsia. Foram ainda detetados exemplares exóticos pertencentes à família Argasidae.
Na vigilância aos flebótomos, pequenos insetos semelhantes a mosquitos e associados à transmissão de doenças como a leishmaniose, foram colhidos 1.448 exemplares. Foram identificadas cinco espécies já conhecidas em Portugal.
A análise permitiu ainda detetar o flebovírus Toscana nos concelhos de Pedrógão Grande e Resende. Este vírus pode estar associado a infeções do sistema nervoso central, como meningites e encefalites, o que volta a colocar em destaque a necessidade de acompanhar estes vetores de forma regular.
Vigilância ganha peso num país em mudança
O alargamento da presença do Aedes albopictus a mais concelhos não representa, por si só, uma situação de emergência, mas confirma uma tendência que as autoridades de saúde têm vindo a acompanhar nos últimos anos. A expansão de mosquitos invasores em Portugal está ligada a vários fatores, incluindo alterações ambientais, circulação de pessoas e adaptação das espécies a novos territórios.
A recomendação das autoridades passa sobretudo por manter a vigilância e reduzir locais propícios à reprodução destes insetos, como águas paradas em recipientes, vasos, caleiras, pneus, baldes ou outros objetos deixados ao ar livre. Pequenas acumulações de água podem ser suficientes para permitir o desenvolvimento de larvas.
Com a chegada dos meses mais quentes, a presença destes vetores tende a ganhar maior atenção. Os dados de 2025 mostram que a presença deste vetor está hoje mais dispersa no território nacional e que a sua evolução continuará a exigir acompanhamento próximo.















