Entre o silêncio do vale do Dão e o granito das casas beirãs, uma aldeia histórica portuguesa volta a despertar atenções, não pelas vozes dos seus habitantes, mas pelo anúncio de um leilão milionário que promete dar-lhe nova vida.
A aldeia de Póvoa Dão, localizada a 14 quilómetros de Viseu, está à venda por cerca de 1,4 milhões de euros num leilão online que reúne curiosos, investidores e apaixonados pelo património rural. Segundo o Jornal de Negócios (JN), a aldeia, com uma área de 100 hectares, conta com 41 habitações em pedra, capela, restaurante, piscina, campo de ténis e amplos jardins.
Esta aldeia está desabitada há mais de uma década. O projeto turístico, que chegou a ser considerado um exemplo de reabilitação do interior português, acabou abandonado na sequência da falência da construtora Ramos Catarino. Agora renasce como uma oportunidade rara no mercado imobiliário nacional.
Silêncio entre o granito e o rio
O acesso faz-se ainda por um antigo caminho romano. No meio do arvoredo, esta aldeia nascida em 1258 foi sendo esvaziada a partir dos anos 60 do século XX. Pertence à freguesia de Silgueiros, berço do vinho do Dão, e viu as casas cair em ruína até meados da década de 1990.
Em 1995, a Ramos Catarino adquiriu Póvoa Dão e investiu cerca de cinco milhões de euros na recuperação e restauração, mantendo a traça beirã. Além das 41 casas e da capela, nasceram espaços comuns, restaurante, campo de ténis e zonas exteriores ajardinadas.
Leilão eletrónico: valores e expetativas
De acordo com a mesma fonte, o leilão, levado a cabo pela Leilosoc, empresa portuguesa especializada na organização e gestão de leilões, decorre em novembro de 2025, com preço base de 1,7 milhões de euros e licitação mínima de 1,445 milhões de euros. No anúncio, a empresa fala numa “oportunidade rara no mercado imobiliário português” e realça o potencial para eco-resort de luxo, aldeamento turístico, projeto vinícola com enoturismo ou condomínio rural sustentável.
“Imagine adquirir uma aldeia inteira, preservada no tempo e envolta pela natureza do vale do Dão. Situada a poucos minutos de Viseu, esta aldeia histórica, cuidadosamente reconstruída em granito, é um património exclusivo e uma oportunidade rara no mercado imobiliário português”, lê-se na página do leilão.
Da recuperação ao novo abandono
Reaberta como aldeia turística em 2004, Póvoa Dão voltou a ficar ‘às moscas’ quando a Ramos Catarino entrou em dificuldades. Em 2013, a construtora avançou com um Processo Especial de Revitalização (PER), apoiado pelo Banco Espírito Santo (BES).
O colapso do BES, em 2014, agravou a situação financeira. Com uma dívida de 60 milhões de euros, a empresa foi comprada em 2016 pelo fundo Vallis, que tentou vender Póvoa Dão por cinco milhões de euros, sem sucesso.
Trocas de mãos e tentativas falhadas
Segundo a mesma fonte, dois anos depois, a Vallis vendeu a posição maioritária na Ramos Catarino aos irmãos Vítor e Jorge Catarino. Seguiu-se novo PER, desta vez apoiado pelo Novo Banco, mas a recuperação não vingou.
A construtora acabaria adquirida pela Nacala Holdings, liderada por Gilberto Rodrigues, também à frente do grupo Elevolution, resultante da fusão das construtoras Edifer, Monte Adriano, Hagen e Eusébios. Este grupo entrou em PER em 2021, com dívida de 350 milhões de euros, processo que continua a arrastar-se em tribunal.
Insolvência e recomeço possível
Segundo o JN , em 2025, a Ramos Catarino entrou em insolvência. É neste contexto que Póvoa Dão regressa ao mercado, agora pela via do leilão eletrónico.
A Leilosoc sublinha: “A Aldeia da Póvoa Dão oferece um potencial único para projetos de ‘eco-resort’ de luxo ou aldeamento turístico; empreendimento vinícola e enoturismo; Condomínio rural sustentável.”
“Cada pedra da Aldeia da Póvoa Dão conta uma história. Entre o silêncio do vale e o som do rio, esta aldeia é um refúgio de autenticidade, um cenário onde a tradição e a modernidade se unem. Se procura um investimento diferenciador e um pedaço autêntico de Portugal, esta aldeia é a resposta”, remata a leiloeira.
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