O surto de hantavírus associado ao navio de cruzeiro MV Hondius levou a Direção-Geral da Saúde (DGS) a publicar orientações para os profissionais do sistema de saúde em Portugal. Apesar da gravidade dos casos ligados ao navio, a avaliação nacional continua a apontar para um risco muito reduzido para a população em geral.
A DGS publicou a Orientação n.º 001/2026, de 11 de maio, dedicada ao hantavírus Andes e aos procedimentos para gestão de contactos no âmbito do surto identificado no navio de cruzeiro MV Hondius. O documento destina-se ao sistema de saúde português e enquadra as medidas a adotar caso entrem em Portugal pessoas que tenham sido contactos de casos relacionados com este surto.
Segundo a mesma, não há alteração da avaliação do risco em Portugal. A autoridade de saúde indicou que o risco para o país “mantém-se muito baixo”, pelo que não existem medidas preventivas a implementar a nível nacional para a população. Esta informação foi divulgada na nota citada pela Lusa e reproduzida por vários órgãos de comunicação social, enquanto a orientação oficial disponível no portal da DGS detalha sobretudo os procedimentos para profissionais de saúde.
O que levou à orientação
Esta alerta está relacionado com o surto de hantavírus Andes no MV Hondius, navio de cruzeiro que partiu do sul da Argentina no início de abril. A Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou, no boletim de 8 de maio, a existência de oito casos associados ao cruzeiro, incluindo três mortes, com seis infeções confirmadas laboratorialmente como vírus Andes.
A OMS avaliou o risco para a população global como baixo, embora considere moderado o risco para passageiros e tripulantes do navio. O organismo refere ainda que o vírus Andes pode, em situações raras, transmitir-se entre pessoas, sobretudo em contexto de contacto próximo e prolongado.
Esta orientação da DGS foi preparada com base nas recomendações da OMS e do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças. O ECDC também publicou aconselhamento rápido para os países da União Europeia (UE) e do Espaço Económico Europeu sobre a gestão de pessoas potencialmente expostas ao vírus Andes no contexto deste surto.
Quem é considerado caso suspeito
De acordo com a DGS, pode ser considerado caso suspeito qualquer pessoa que tenha partilhado ou visitado um meio de transporte, como barco ou avião, onde tenha havido um caso confirmado ou provável de infeção por hantavírus Andes. Também entra nesta definição quem tenha estado em contacto com um passageiro ou membro da tripulação do MV Hondius desde 5 de abril deste ano e até ao fim do período de incubação, fixado em 42 dias.
Para ser considerado suspeito, esse contacto deve apresentar febre aguda, ou historial de febre, juntamente com sintomas como dores musculares, calafrios, dor de cabeça, queixas gastrointestinais, incluindo náuseas, vómitos, diarreia ou dor abdominal, ou sintomas respiratórios, como tosse, falta de ar, dor no peito ou dificuldade em respirar.
A DGS define ainda caso provável como uma pessoa com sinais e sintomas compatíveis e uma ligação epidemiológica conhecida a um caso confirmado ou provável de infeção por hantavírus Andes. Já um caso confirmado exige deteção laboratorial do vírus, por RT-PCR, testes serológicos ou isolamento do hantavírus Andes a partir de uma amostra biológica.
O que é considerado contacto
A orientação oficial define contacto como uma pessoa exposta a um caso confirmado ou provável durante o período de transmissibilidade, que vai desde dois dias antes do aparecimento dos sintomas até à ausência de sintomas. Essa exposição pode envolver secreções respiratórias, saliva, sangue ou outros fluidos corporais.
A DGS inclui nesta definição situações como contacto físico direto, prestação de cuidados, contacto íntimo, partilha de cama ou de objetos de higiene pessoal. Também são consideradas exposições relevantes a proximidade inferior a dois metros por mais de 15 minutos acumulados e a permanência em espaços fechados ou partilhados, como cabines de navio ou lugares próximos em transportes.
Esta identificação de contactos pode chegar à DGS através de parceiros internacionais, autoridades de sanidade internacional, profissionais de saúde, unidades de prestação de cuidados ou da linha SNS 24. A gestão destes contactos deve ser iniciada de imediato pelas autoridades de saúde competentes.
O que acontece se surgir um caso suspeito
Quando um profissional de saúde identifica um caso suspeito, deve contactar de imediato a DGS para validação e orientação. A própria orientação indica que um caso suspeito pode também ser identificado através da SNS 24 ou do 112, quando a pessoa relata exposição compatível e aparecimento de sinais ou sintomas.
Depois da validação, a DGS ativa o INEM, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e o hospital de referência. Até à chegada do transporte, o caso suspeito deve permanecer em isolamento físico, num espaço confinado, e usar máscara cirúrgica.
Os hospitais de referência definidos pela DGS são a ULS São José, através do Hospital Curry Cabral para adultos e do Hospital Dona Estefânia para crianças, e a ULS São João, para doentes adultos e pediátricos. O transporte do caso suspeito até ao hospital de referência deve ser assegurado pelo INEM.
Transmissão está geralmente ligada a roedores
O hantavírus é, em regra, transmitido a seres humanos através do contacto com urina, fezes ou saliva de roedores infetados, ou com superfícies contaminadas. A OMS explica que a exposição costuma ocorrer em locais onde existem roedores e que, no caso do vírus Andes, há registo de transmissão limitada entre pessoas em contactos próximos e prolongados.
Os sintomas iniciais podem assemelhar-se a uma infeção gripal, incluindo febre, dores musculares, arrepios, dor de cabeça e queixas gastrointestinais. Em alguns casos, a doença pode evoluir para dificuldade respiratória grave, o que justifica a necessidade de referenciação rápida e vigilância apertada dos contactos relevantes.
Sem medidas gerais para a população
Para a população portuguesa em geral, a mensagem principal continua a ser a ausência de medidas preventivas nacionais adicionais.
A orientação oficial da DGS não se dirige ao público em geral, mas sim aos profissionais do sistema de saúde, para garantir que eventuais contactos ou casos suspeitos ligados ao MV Hondius são identificados, acompanhados e encaminhados de forma adequada.
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