Vários modelos de auscultadores vendidos na União Europeia podem conter substâncias químicas capazes de interferir com o sistema hormonal humano. A conclusão surge num estudo recente que analisou dezenas de dispositivos populares e encontrou vestígios de compostos potencialmente problemáticos em muitos deles.
A investigação, divulgada pela Euronews Next, não conclui que exista um risco imediato para os utilizadores. Ainda assim, os especialistas alertam que a exposição repetida e prolongada a determinadas substâncias químicas presentes nos materiais plásticos pode levantar preocupações a longo prazo.
O estudo foi conduzido pela organização ambiental checa Arnika em parceria com o projeto ToxFree LIFE for All, uma iniciativa financiada pela União Europeia que analisa a presença de substâncias perigosas em produtos de consumo.
Investigadores analisaram dezenas de auscultadores
De acordo com a Euronews Next, os investigadores desmontaram mais de 80 modelos de auscultadores vendidos no mercado europeu. No total, foram recolhidas cerca de 180 amostras de diferentes tipos de plástico utilizados na estrutura e nos componentes destes dispositivos.
Os testes incluíram auscultadores destinados a adultos, modelos infantis e equipamentos concebidos para videojogos. Estes últimos foram incluídos porque são frequentemente utilizados durante períodos prolongados, o que pode aumentar a exposição a eventuais substâncias presentes nos materiais. As amostras recolhidas foram analisadas em laboratório para identificar a presença de compostos conhecidos como disruptores endócrinos, substâncias que podem interferir com o sistema hormonal.
Classificação por níveis de exposição
Segundo explica a publicação, os auscultadores foram classificados com base no nível de substâncias químicas detetadas. Os modelos considerados mais seguros receberam classificação verde, enquanto outros foram classificados como amarelos ou vermelhos consoante o grau de preocupação. No total, cerca de 44% dos modelos analisados receberam classificação vermelha, indicando níveis considerados preocupantes de exposição química.
Ainda assim, o estudo também concluiu que apenas uma parte reduzida desses modelos apresentava estas substâncias em componentes que entram diretamente em contacto com a pele. De acordo com a mesma fonte, cerca de 11% dos modelos classificados como preocupantes tinham materiais potencialmente nocivos nas partes que tocam no ouvido.
Este resultado sugere que muitos fabricantes dão prioridade à segurança química nas partes em plástico macio ou nas superfícies em contacto direto com o utilizador.
Substâncias detetadas nos materiais
Entre as substâncias encontradas estão os bisfenóis e os ftalatos, dois grupos de compostos químicos amplamente utilizados na indústria do plástico.
Segundo a Euronews Next, os bisfenóis são utilizados em vários produtos de consumo, incluindo embalagens de alimentos, recipientes plásticos e componentes eletrónicos. A Agência Europeia do Ambiente tem alertado que estas substâncias podem interferir com o sistema hormonal e afetar a saúde reprodutiva.
Os ftalatos, por sua vez, são frequentemente usados para tornar os plásticos mais flexíveis e resistentes. Estes compostos estão presentes em inúmeros produtos do dia a dia, desde cosméticos a materiais médicos. De acordo com o consórcio europeu de biomonitorização HBM4EU, citado pela publicação, a exposição a alguns tipos de ftalatos tem sido associada a problemas como obesidade, resistência à insulina, asma e perturbações de atenção.
Alguns modelos ultrapassaram limites legais
A investigação identificou ainda casos específicos em que os níveis destas substâncias ultrapassavam os limites legais estabelecidos na União Europeia. Segundo a Euronews Next, um modelo de auscultadores infantis vendido na plataforma Temu apresentava uma concentração de ftalatos de cerca de 4.950 miligramas por quilograma. Este valor é quase cinco vezes superior ao limite legal permitido para produtos destinados a crianças no espaço europeu.
Outro caso referido no estudo envolve os auriculares My First Care, dirigidos ao público infantil e disponíveis em plataformas de comércio eletrónico como a Amazon. Este modelo apresentou a maior concentração de bisfenóis entre os dispositivos analisados.
Modelos considerados mais seguros
Apesar das preocupações levantadas, o estudo também identificou alguns modelos com resultados considerados mais seguros. De acordo com a Euronews Next, os AirPods Pro 2 da Apple e os auscultadores Tune 720BT da JBL obtiveram classificações positivas na avaliação global. Por outro lado, alguns auscultadores infantis, como os modelos Paw Patrol da empresa Oceania Trading, receberam classificação vermelha devido a preocupações relacionadas com a exposição a substâncias químicas.
Os resultados mostram ainda diferenças entre segmentos de mercado. Cerca de 60% dos auscultadores para jogos destinados a adultos receberam classificação vermelha, enquanto os modelos para crianças apresentaram resultados ligeiramente melhores, com aproximadamente metade a obter classificação verde.
Fabricantes ainda não responderam ao estudo
A investigação analisou mais de 81 modelos de auscultadores pertencentes a mais de 50 marcas conhecidas. Entre elas encontram-se empresas como Samsung, Apple, Sony e Sennheiser. Segundo a Euronews Next, todos os modelos analisados apresentaram pelo menos vestígios de algumas substâncias químicas potencialmente nocivas, incluindo bisfenóis, ftalatos ou retardadores de chama.
Após a divulgação do estudo, alguns retalhistas europeus começaram a reagir. A imprensa holandesa noticiou que plataformas como Bol.com, CoolBlue e MediaMarkt deixaram de vender determinados modelos de auscultadores mencionados na investigação.
A Euronews Next refere ainda que tentou obter uma reação dos fabricantes citados no estudo, mas não recebeu respostas imediatas por parte das empresas.
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