Nos últimos anos, a tensão entre a Rússia e o Ocidente tem sido marcada por conflitos diplomáticos, sanções económicas e alertas militares sobre o futuro da segurança europeia. Um especialista militar alemão prevê que a Rússia possa realizar uma incursão no flanco oriental da NATO até 2028, num movimento que colocaria à prova a unidade da Aliança Atlântica, segundo aponta o jornal digital HuffPost. O cenário, caso se confirme, envolveria todos os países membros, incluindo Portugal, ao abrigo do artigo 5.º do tratado, que determina que um ataque a um é um ataque a todos.
Nas últimas semanas, têm-se multiplicado as análises sobre a segurança europeia e as possíveis intenções de Moscovo. Entre as vozes mais ouvidas está a de Carlo Masala, professor de Política Internacional na Universidade das Forças Armadas de Munique, na Alemanha, que considera provável uma “incursão limitada” da Rússia em território da NATO nos próximos três anos.
O académico é autor do livro If Russia Wins: A Scenario (“Se a Rússia ganhar: um cenário”), onde traça um retrato do impacto geopolítico que uma vitória russa na Ucrânia teria para a Europa. Em declarações à revista Newsweek, o especialista sublinhou que Vladimir Putin “acredita que a NATO não reagiria de forma unida” em caso de provocação direta.
Putin poderá tentar “testar” a NATO
Carlo Masala explica que Moscovo já não confia plenamente na aplicação automática do artigo 5.º, que prevê defesa mútua entre os países da Aliança. Citando Bruno Kahl, antigo chefe dos serviços secretos alemães, o professor afirmou que “há círculos na Russia que gostariam de testar” a capacidade de reação da NATO.
O especialista acredita que uma incursão de pequena escala, por exemplo, no Báltico ou na fronteira da Polónia, poderia ser utilizada para medir a resposta ocidental. Essa operação, segundo Masala, “poderia ocorrer antes de 2028”, aproveitando a instabilidade política e as diferenças de posição entre os países membros, refere a mesma fonte.
Em particular, o analista menciona que o Kremlin observa com atenção o cenário político norte-americano. “Moscovo vê uma Administração Trump hesitante, que não parece disposta a lutar por uma guerra na Europa”, sublinhou.
Divisões internas preocupam aliados
O especialista recorda também um episódio recente que revelou tensões dentro da Aliança: a incursão de aviões de combate russos no espaço aéreo da Estónia. O país chegou a invocar o artigo 4.º da NATO, que prevê consultas entre aliados sempre que um deles considere a sua integridade territorial ameaçada.
Segundo Masala, durante essa reunião houve divergências claras. Estados Unidos e Alemanha admitiram que o episódio pudesse ter sido um erro, enquanto os países da Europa de Leste e do Báltico consideraram tratar-se de uma provocação deliberada.
Para o académico, este tipo de divisão é precisamente o que Moscovo poderá explorar nos próximos anos, tentando abalar a confiança entre os aliados.
Portugal também estaria vinculado à resposta
Como membro fundador da NATO desde 1949, Portugal ficaria igualmente comprometido em caso de ativação do artigo 5.º. Uma agressão militar a qualquer país aliado obrigaria à resposta conjunta, incluindo apoio logístico, militar ou diplomático.
Nos últimos anos, o país tem reforçado a sua participação em missões internacionais, desde o Báltico até ao Mediterrâneo, contribuindo com meios aéreos e navais para operações de dissuasão. A possibilidade de um cenário de tensão direta com a Rússia reforça, assim, a importância da presença portuguesa no quadro da defesa europeia e atlântica.
Europa em alerta
As declarações de Masala coincidem com os recentes avisos de Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, que alertou que “a Europa continuará em risco mesmo depois de terminada a guerra na Ucrânia”.
O continente prepara-se, por isso, para uma nova fase da segurança comum, marcada por drones, ciberataques e ameaças híbridas. Em vários países europeus, estão a ser reforçadas as infraestruturas militares e criadas linhas de defesa aérea para proteger fronteiras externas da NATO, de acordo com o HuffPost.
Masala acredita que os próximos anos serão decisivos para testar a coesão política e militar da Aliança. Uma resposta dividida, adverte, poderia ter consequências graves para o equilíbrio europeu e para a credibilidade da própria NATO.
Uma década decisiva
Com a guerra na Ucrânia ainda por resolver e o aumento da tensão no leste europeu, os países aliados, incluindo Portugal, enfrentam um desafio comum: manter a solidariedade e a prontidão num contexto de incerteza global.
Segundo Carlo Masala, “a verdadeira batalha será pela unidade”. E, como lembra, o sucesso ou fracasso da NATO em resistir a uma provocação russa poderá definir o rumo da segurança europeia nas próximas décadas.
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