Trump pode e faz. Ao contrário de Putin, não se deixa enlamear em terrenos de guerra. Faz operações cirúrgicas. No Irão, na Nigéria e na Venezuela. Tem um padrão. Ameaça e quem não obedece leva. Tem gente de mão muito perigosa, disposta a tudo. E o exército e a CIA às ordens. Tem uma opinião pública que contesta a sua incapacidade de fazer crescer a economia e baixar a inflação. Mas que se coloca sempre do lado do orgulho americano expansionista. Sempre que a agenda interna soçobra, ataca-se um novo alvo. É preciso alimentar o imediatismo da agenda mediática. Portanto, sabemos que não vai parar. O império está de regresso. Com outro tom e sem rebuços.
A “extração” de Maduro diz muito do estado do mundo. Caiu o ditador, mas mantém-se a ditadura. Não se trata de legitimidade ou democracia. Mas tão somente de colaboracionismo com o mandante. A China sabe que perdeu um aliado. E, provavelmente, o controlo sobre os recursos petrolíferos. Putin reclama, mas está satisfeito. Sabe que esta operação o legitima. Da América Latina houve um repúdio dos que temem vir a seguir – Cuba, Colômbia, México, Brasil. Milei deixa-se fotografar num bombardeiro e sorridente afirma: “a liberdade avança”. Até aqui nada surpreende.

Do lado europeu o incómodo. Foi um ataque a um governo não legitimo. A União Europeia não reconheceu a vitória de Maduro. E apela, agora, a uma transição pacífica. Macron levou o dia inteiro para reagir. Merz pediu cautela e tempo para análise. Starmer com um ar assustado diz que não teve nada a ver com o assunto. Só Sanchez foi capaz de questionar a violação do direito internacional. Fica a fragilidade da posição, a incapacidade de iniciativa e o precedente para o que há de vir.
Zelenski faz uma declaração imprudente, que se tornou viral: “Bem, o que posso dizer é que, se vocês conseguem fazer isso com ditadores, então os Estados Unidos sabem o que fazer a seguir.” O líder ucraniano não se saiu bem. À espera de dias melhores, parece embrulhado num “plano de paz” totalmente dependente dos falcões americanos. Continua a confiar no desconfiável.
Dos Negócios Estrangeiros português vem o alinhamento total com a “extração”. E o inequívoco apoio ao papel de “pivot” dos EUA. Temente pela comunidade portuguesa, sem um sinal crítico relativamente ao ato em si. Nem nenhum prurido sobre a gula extrativista de Trump. Tudo se aceita, vindo de quem vem. Mais entusiasta só mesmo a reação de Ventura. Cada vez mais próximos. Com vento a favor, está a direita despudorada.
Percorrem-se os média a nível mundial. Não há dúvida. Algo se vai passar a seguir. O Presidente da Colômbia está na lista negra dos EUA. Outro, acusado de cumplicidade com o narcotráfico, extratável. Ameaça-se Cuba. O eterno rival às portas do Golfo do México, ou antes, do agora “Golfo da América”. Claudia Sheinbaum (México) e Lula da Silva (Brasil) parecem estar a salvo, mas que se ponham a pau. Estão na lista vermelha. Expugnáveis. Tudo óbvio.
Mas Trump não está a olhar apenas a sul. Talvez a Gronelândia seja o seu verdadeiro alvo. Neste caso por uma questão geoestratégica. E, já agora, por se tratar de mais um governo de esquerda. Confesso-me expectante. Ver um ataque à soberania de um estado por outro estado da NATO. Depois das declarações sucessivas de interesse de Trump, da ida de J.D. Vance e esposa em turismo militar ao círculo polar ártico e da nomeação de um enviado especial que afirma querer a Gronelândia como parte dos EUA, como se expressará este desejo da Casa Branca? Esta gente não procura justificações criativas. Apenas ataca.
Esta atividade beligerante dos EUA deixa uma dúvida: quem devemos temer mais: Trump ou Putin? Ambos não escondem o desprezo pelo direito internacional, pelas instituições e por lideranças fracas. Ambos continuarão a fazer valer o poder da força. A União Europeia, essa, inclina-se.
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