A campanha prossegue, alheia ao cenário internacional, onde a prossecução da crónica actividade imperialista dos EUA com o saque de Donald na Venezuela, sob os habituais falsos pretextos de tráfico de drogas ou armas de destruição massiva, trocando ditadores por fantoches, poderá inaugurar uma nova Guerra Fria, como prova da sobrevivência do capitalismo.
Além da política externa, indivisível da interna, estão ausentes do debate a contínua devastação do estado social que entronca indirectamente na crise da habitação, a destruição ambiental e a precariedade dos trabalhadores sem existência formal por não serem assalariados, centrando a discussão na extrema direita e no seu programa, evitando dissecar essa coisa antiquíssima chamada ética.
Não a ética pessoal na conduta política, uma vez que é a actuação que deve estar cingida à ética, e não o oposto, sobretudo quando a esfera legal se transformou numa grotesca caricatura de si mesma, na constante insistência em tornar-se uma peça no tabuleiro do poder político.

Autor, tradutor e editor
Porque não exigimos dos dirigentes, proximidade concreta ao estilo de vida de quem servem, para a práxis de uma realpolitik, ao invés da política do distanciamento que é norma?
A questão basilar nos ganhos pornográficos hardcore 1.º escalão de Mendes, Montenegro ou outro, não reside na legitimidade da acção pessoal, mas na legitimidade intrínseca da acção, ou o ónus ficará refém do indivíduo e por isso o escrutínio deve ser regra, silenciosa e contínua.
Ao exercício do lobbying, simples canibalização de um círculo de influência obtido em cargos políticos para benefício de conglomerados empresariais e para avultados pagamentos pessoais, interessa discutir se tais ganhos são aceitáveis por responsáveis de serem garante da estabilidade social, sobretudo, dada a situação económica dos trabalhadores.

Porque não exigimos dos dirigentes, proximidade concreta ao estilo de vida de quem servem, para a práxis de uma realpolitik, ao invés da política do distanciamento que é norma?
Continuaremos tolerantes com uma arquitectura promotora do lobbying profissional, tornando principal motivação dos políticos, apesar dos lamentos dos baixos salários num país de salários baixos, o dinheiro?
Mesmo que indirectamente, através da gestão de contactos, pessoais apenas no sentido da apropriação pessoal de um instrumento público, algo ao alcance apenas dos poderosos, aumentado assim o fosso social e simultaneamente, empregando o erário público, não na proposta mais eficaz, mas na de maior intimidade pessoal.
Com a agravante de o lobbying materializar a verdadeira face da meritocracia, assente não em valências pessoais – impossíveis de separar do contexto socioeconómico – mas enraizada nas facilidades inerentes aos meios privilegiados e nas dificuldades inerentes aos meios desfavorecidos.
Neste panorama onde os candidatos considerados potenciais vencedores se acusam uns aos outros de desonestidade, ainda que não ilegal, simultaneamente responsável e oriunda da morte da ética, é assim nutrido o discurso da corrupção generalizada que serve apenas um desses candidatos cuja pureza ética foi há muito desmascarada, nenhum se apresenta alternativa a qualquer outro.
A tese não é a do mal menor, pois a diferença entre os males, não reside na grandeza, mas na velocidade a que chegamos ao mesmo destino, à semelhança do que acontece com PS e PSD. Ambos nos trouxeram o neoliberalismo, ainda que em ritmos diferentes.
Entre um candidato com vergonha da palavra esquerda, outro com delírios de poder bélico e autoritário enquadrado num complexo de Eanes, um outro a reencenar a candidatura hyperpop de Marcelo, é o ex-comentador de futebol que beneficia, fruto dos massivos tempos de antena proporcionados – “levar ao colo” na gíria futebolística – ainda que talvez perto de atingir o princípio de Peter.
A única alternativa efectiva reside fora do círculo destes quatro, sem esquecer que, mesmo aí, há versões de cada um, como é a IL, o ADN, a Nova Direita e já foi o Ergue-te.
Todos os votos serão igualmente úteis, ou totalmente inúteis.
Não façamos também disso, lobby.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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