Há quem confunda inveja com ciúme, que não sendo qualquer deles sentimentos recomendáveis, não são bem a mesma coisa. No primeiro, alguém deseja algo que pertence a outrem, bem material, experiência, ou qualidade imaterial. No segundo, exprime-se o medo de perder algo que já se tem por adquirido, marido ou mulher por exemplo, amor roubado ou disputado. A inveja é esteticamente feia, altamente tóxica, sentir tristeza e desprazer com a felicidade do outro. Rogar pragas, feitiços e rezas pelo seu insucesso, invocar desastres de natureza pessoal, familiar e profissional, programar sabotagens, agressões físicas e morais, no extremo, atentar contra a vida de alguém.
Desde os confins bíblicos de Abel e Caim, foi a inveja que levou ao fratricídio. Daí para cá a Humanidade nunca mais parou, numa competitividade sem limites. Inveja-se o estatuto social, a ascensão profissional, a projecção mediática, a aparência física de modelos e protótipos de beleza fabricados pela indústria, promovidos e vendidos pelo complexo comercial. Invejam-se as qualidades artísticas, desportivas ou intelectuais de quem emerge acima da multidão. Por geração espontânea, ou alimentadas por interesses conexos ou colaterais ficaram famosas rivalidades à escala mundial, onde provavelmente germinaram invejas mútuas e ambições iguais. Bill Gates não se livra da fama de ter sentido profunda inveja pelo sucesso de Steve Jobs e da Apple. Já no Renascimento, não passou historicamente despercebida a disputa entre Leonardo Da Vinci e Miguel Ângelo. E o que dizer dos génios de Pablo Picasso e Henri Matisse? Ou das estrelas da Hollywood dos anos de ouro, com Elisabeth Taylor e Debbie Reynold a disputarem-se reconhecimento e oportunidades? Outros duelos eternos marcam a História contemporânea: Marilyn Monroe e Jacqueline Kennedy, Mick Jagger e David Bowie, Madonna e Lady Gaga, Prince e Michael Jackson, Taylor Swift e Katy Perry e, já agora, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Muito empresários invejam o sucesso, a expansão e a inovação dos competidores.
Muitos cientistas invejam o financiamento, os prémios e os avanços de colegas de outros países e instituições. Quantos atletas invejam os títulos e os recordes de outros atletas? Até no domínio religioso, quanto líderes espirituais invejam o crescimento e a influência de outras igrejas. O mais básico deste pecado capital refere-se aos bens materiais, de quem tem casas senhoriais, carros de luxo, ornamentos de gente rica, heranças familiares, vizinhanças mal resolvidas. Este sentimento negativo pode chegar ao ponto de até se invejar a sensação de paz, de liberdade, de alegria, tranquilidade e bem-estar emocional de quem se sente feliz. Será inveja Putin mandar invadir a Ucrânia, e ameaçar não parar por aí? Vai mais longe a sua ambição, ao seu poder absoluto junta uma visão expansionista de reconstituição imperial.
Campo fértil de invejas é a cena política. O sucesso de um líder é o fracasso de outro. Mede-se em votos, em popularidade, em sondagens, em aparições públicas. Se descermos à nossa terra algarvia, o que chamar a António Pina que, fechado o seu ciclo em Olhão, se inveja agora do vizinho município de Faro? E Carlos Gouveia Martins em Portimão? Inveja o lugar de Álvaro Bila ou é só a ambição do sangue novo que lhe borbulha nas guelras? Hélder Martins e Telmo Pinto em Loulé, o que são? Invejosos, ambiciosos, ou as duas coisas ao mesmo tempo? Tudo faz parte da natureza humana…
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