Quando problemas industriais com raízes antigas continuam a produzir consequências graves para a saúde e a economia, é sinal de que algo profundo e estruturado falhou. Entre esses problemas destaca-se uma fraude automóvel de larga escala, cujos efeitos se foram acumulando com o tempo, afetando silenciosamente milhões de vidas por toda a Europa.
Impacto real
Um novo relatório veio expor os danos provocados por práticas irregulares ligadas ao setor automóvel, que permitiram a circulação de veículos com características perigosas para a população. O documento revela um cenário preocupante, que se estende por mais de uma década.
A investigação aponta para emissões atmosféricas altamente nocivas, particularmente óxidos de azoto (NOx), provenientes de viaturas vendidas em toda a União Europeia (UE) e Reino Unido. Estas emissões continuam a exceder, de forma suspeita, os valores legais estabelecidos.
Baseado em dados recolhidos por sensores remotos, o relatório analisa o impacto cumulativo dessas emissões entre 2009 e 2024. Os resultados foram compilados pelo Centro de Investigação em Energia e Ar Limpo (CREA), conforme aponta o ClientEarth.
Uma fraude com efeitos prolongados
A causa de tudo isto? O uso de tecnologias proibidas para manipular os testes de emissões em veículos automóveis, uma prática que ficou conhecida como Dieselgate. Ainda que o escândalo tenha sido denunciado há quase dez anos, os seus efeitos continuam bem presentes nas estradas e nos hospitais.
O impacto nas rotinas dos cidadãos é igualmente notável: cerca de 15 milhões de dias de baixa médica estão associados a estas emissões. Estes dados refletem o peso invisível que a poluição impõe aos sistemas de saúde e à qualidade de vida.
Um dos responsáveis pelo estudo desta fraude automóvel não deixou margem para dúvidas: “As nossas contas revelam os impactos devastadores na saúde provocados pelas emissões excessivas de diesel, milhares de vidas encurtadas, inúmeras crianças com asma e um enorme fardo de doenças crónicas”.
Custo económico de uma crise prolongada
Segundo a mesma fonte, o relatório estima que o peso económico destas consequências atinja os 760 mil milhões de euros. Trata-se de um encargo colossal para os sistemas de saúde, para os contribuintes e para as economias europeias no seu conjunto.
O autor do estudo, citado pela mesma fonte, reforça o apelo à ação: “Esta é uma crise com um legado longo e persistente. Sem intervenção, estes impactos prolongar-se-ão por gerações. Ainda vamos a tempo de agir. Os governos têm uma oportunidade e uma responsabilidade de quebrar este ciclo”.
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Justiça começa a agir lentamente
Recentemente, um tribunal alemão condenou quatro ex-gestores da Volkswagen por fraude. Dois deles foram mesmo sentenciados a prisão pelo seu envolvimento direto no Dieselgate, tornado público em 2015.
Apesar deste avanço na responsabilização, o uso de tecnologia para manipular emissões continua a ser visto como um problema disseminado por toda a indústria automóvel. A investigação aponta para uma prática generalizada e não limitada a uma única marca, de acordo com a fonte mencionada anteriormente.
Ainda assim, as autoridades da UE e do Reino Unido têm feito pouco para enfrentar o problema de forma coordenada e eficaz. Em muitos casos, os consumidores foram forçados a recorrer à justiça por conta própria para tentar obter compensações financeiras.
Pressão legal por parte da sociedade civil
A organização ClientEarth tem insistido na responsabilização das autoridades e os especialista declaram: “Os fabricantes de automóveis têm tentado varrer o escândalo Dieselgate para debaixo do tapete durante demasiado tempo. Já passou quase uma década e os governos têm de deixar de adiar e responsabilizar os poluidores”.
Em 2023, várias organizações não-governamentais apresentaram queixas legais contra os governos de França, Alemanha e Reino Unido pela sua inação perante a proliferação destes dispositivos ilegais.
Um escândalo com ramificações duradouras
Embora a atenção mediática ao Dieselgate tenha diminuído com o tempo, o problema persiste e os seus efeitos são agora mais visíveis do que nunca.
As consequências ambientais, de saúde e económicas não se limitam ao passado: continuam a afetar milhões de pessoas. Uma inação prolongada poderá significar a repetição de erros já conhecidos. Como alerta o relatório, não se trata apenas de reparar o passado, mas de evitar um futuro ainda mais grave.
A ausência de uma resposta firme por parte das autoridades levanta sérias questões sobre o compromisso com a saúde pública e a justiça ambiental. Mais do que compensações individuais, é necessária uma estratégia coletiva.
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