Portugal tem uma longa tradição de conviver com assimetrias territoriais como quem convive com um velho defeito de construção: sabe-se que existe, sabe-se que causa danos, mas adia-se eternamente a reparação. A ausência de uma ligação direta entre Castro Verde e Tavira, passando por Almodôvar e Cachopo, é um desses casos em que o país parece ter desistido de corrigir o óbvio. Não estava no debate nacional, mas deveria estar. E é tempo de o colocar lá.
O interior sul continua a ser tratado como um território secundário, onde a mobilidade é um privilégio e não um direito. O Sotavento algarvio e o Baixo Alentejo, apesar de vizinhos, vivem separados por um vazio rodoviário que condiciona o investimento, a competitividade e a qualidade de vida. Entre ambos, resta apenas a EN2 — hoje transformada em rota turística, símbolo cultural e produto económico. A sua função mudou, e bem. O que não mudou foi a necessidade de uma via moderna, rápida e segura que assegure aquilo que a EN2 já não deve assegurar.
Mas há um ponto que raramente entra na discussão e que deveria ser central: o litoral do Sotavento também tem a ganhar — e muito — com esta ligação. Tavira, em particular, deixaria de estar dependente de um funil rodoviário que a empurra para percursos longos e ineficientes sempre que precisa de se ligar ao seu interior, ao Alentejo e ao centro do país. Uma nova via estruturante permitiria alargar a sua área de influência económica, reforçar a sua capacidade logística e aproximar-se de mercados que hoje estão mais longe do que deveriam.
E há ainda a dimensão ibérica, tantas vezes esquecida. A proximidade à fronteira torna esta ligação particularmente relevante: encurtaria distâncias para Huelva e Sevilha, potenciando fluxos comerciais, turísticos e empresariais que hoje se perdem em desvios absurdos. O país fala muito de internacionalização, mas continua a ignorar que a competitividade também se mede em quilómetros poupados.
A ligação entre a A2 e a A22 não é um luxo. É uma infraestrutura essencial que permitiria encurtar distâncias reais e económicas, reforçar a resposta da proteção civil, atrair investimento e devolver centralidade a localidades que têm sido tratadas como notas de rodapé. Cachopo deixaria de ser um fim de linha; Almodôvar poderia finalmente desempenhar o papel estratégico que a geografia lhe atribui. Tavira ganharia uma retaguarda sólida, capaz de sustentar o seu crescimento. E o país ganharia uma costura onde hoje existe uma fratura.
Num tempo em que a coesão territorial é repetida como mantra, esta ligação é um teste à seriedade das políticas públicas. Não basta proclamar que o interior importa; é preciso agir onde a falta de ação se tornou estrutural.
A pergunta, por isso, não é retórica. É política. É incómoda. É urgente.
Porque não?
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