O Município de Lagos aprovou a celebração de um protocolo de colaboração com a Associação de Moradores 1.º de Maio para garantir a continuidade da Arte Xávega Tradicional da Meia Praia, prática piscatória considerada património vivo da comunidade lacobrigense.
A decisão surge após o falecimento, no final de 2025, de José da Glória Santos, conhecido como Zé Bala, figura central na preservação desta tradição marítima.
Segundo a autarquia, a nova parceria pretende assegurar que a atividade se mantenha viva, passando a enquadrar a arte xávega como manifestação cultural, e não como atividade económica privada.
Homenagem a Zé Bala
José da Glória Santos dedicou grande parte da sua vida ao mar e à preservação desta prática ancestral, transmitindo conhecimentos entre gerações e contribuindo para manter viva uma tradição profundamente ligada à identidade local.
Ao apresentar a proposta em reunião de Câmara, o presidente da autarquia sublinhou que a iniciativa representa também uma homenagem ao pescador: “Temos de garantir que a Arte Xávega não morreu com o José Bala. Em sua memória é muito importante continuar, pelo que com este protocolo ficam reunidas as condições para que tal aconteça”.
A proposta foi aprovada por unanimidade pelo executivo municipal.
Processo de valorização iniciado em 2019
O apoio municipal à preservação da Arte Xávega da Meia Praia remonta a 2019, altura em que foi iniciado o processo para a inclusão desta prática na Matriz PCI do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
No âmbito desse processo, foram realizados estudos históricos e antropológicos, bem como registos fotográficos e audiovisuais, com o objetivo de documentar os diversos aspetos associados à prática.
Contudo, a interrupção da atividade – motivada por problemas na embarcação e pelo agravamento do estado de saúde do arrais e proprietário da arte – impediu a conclusão do processo de inscrição.
Além disso, as exigências legais aplicáveis à atividade piscatória dificultavam a continuidade da prática, uma vez que a licença de pesca dependia do cumprimento de determinados níveis de venda em lota, algo difícil de atingir numa atividade desenvolvida sobretudo por dedicação cultural e comunitária.
Nova parceria para recriar a faina tradicional
Com o objetivo de preservar este saber tradicional, o Município de Lagos e a Associação de Moradores 1.º de Maio, com orientação da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) e apoio da Autoridade Marítima Nacional, avançaram com um novo modelo de parceria.
Neste enquadramento, a arte xávega passa a ser realizada como manifestação cultural episódica.
A associação, que integra arrais de pesca marítima, incluindo familiares de Zé Bala, compromete-se a organizar recriações da faina piscatória tradicional, prevendo-se a realização de pelo menos nove lances de pesca por ano, preferencialmente aos sábados de manhã, dependendo da autorização da DGRM, das condições meteorológicas e do estado do mar.
Por sua vez, o município assegura o apoio financeiro necessário à operacionalidade da arte, bem como o espaço de praia necessário à logística da atividade.
O objetivo, segundo a autarquia, é preservar e valorizar a Arte Xávega Tradicional – praticada sem recurso a meios mecânicos – como manifestação do património cultural marítimo e comunitário de Lagos.
Além de reforçar a identidade local e o sentimento de pertença da comunidade, esta tradição contribui também para valorizar a oferta histórica e cultural do concelho, num território com forte vocação turística.
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