Uma análise divulgada em Espanha aponta nove “lições de vida” que marcaram quem cresceu nas décadas de 1960 e 1970, do tédio que puxava pela criatividade ao jogo livre na rua, e sugere que algumas dessas aprendizagens (sem nostalgia nem romantização) ajudam a explicar uma maior tolerância à frustração e à incerteza.
O portal espanhol La Razón descreve uma infância com menos ecrãs e mais rua, mas também com menos “amortecedores” emocionais e menos supervisão constante, um contraste que continua a alimentar debate entre pais, educadores e especialistas.
A lista reúne nove ideias: tédio como motor, aprender a perder, paciência, brincar sem supervisão, autonomia, lidar com a morte, engenho na escassez, aprender pelo exemplo e a comunidade como rede. Ainda assim, o próprio texto avisa: não se trata de dizer que “antes era melhor”, mas de perceber o que estas experiências podem ter deixado como herança psicológica.
O que a psicologia reconhece nestas nove lições
A primeira é o tédio. Hoje, o Child Mind Institute sublinha que momentos de aborrecimento podem ajudar crianças a desenvolver criatividade, auto-estima e a capacidade de encontrar soluções quando não há entretenimento imediato.
A segunda passa por conviver com o fracasso. A psicologia da resiliência tende a valorizar desafios “geríveis” e a aprendizagem de coping; em linguagem simples: falhar com apoio (sem humilhação) pode fortalecer recursos internos, em vez de fragilizar.
A terceira é a paciência e o “adiar a recompensa”. O famoso “teste do marshmallow” ficou associado à ideia de que esperar traz melhores resultados, mas estudos mais recentes têm relativizado a força dessa previsão a longo prazo, lembrando que contexto e fatores sociais contam muito.
Autonomia: brincar, explorar e resolver conflitos
A quarta lição é o jogo livre, sem agenda e sem adultos a intervir em tudo. A Scientific American defende que a brincadeira não estruturada é importante para o desenvolvimento social, emocional e cognitivo, incluindo lidar com stress e resolver problemas.
A quinta é crescer sem atenção permanente: pais presentes, mas nem sempre disponíveis “a cada minuto”. Em termos de desenvolvimento, a autonomia também se treina quando a criança tem espaço para decidir e resolver, e a APA recomenda precisamente ajudar os mais novos a ganharem confiança para tomar decisões adequadas e enfrentar problemas.
Aqui há uma nuance essencial: recuperar autonomia não é regressar ao “vale tudo”. É criar condições seguras para a criança experimentar, errar e ajustar, uma diferença importante num tempo em que os riscos reais e a logística familiar também mudaram.
Vida real: perda, escassez e aprendizagem pelo exemplo
A sexta lição, mais sensível, é encarar a morte e o luto com menos “filtros”. Guias atuais lembram que crianças aprendem sobre luto observando os adultos e beneficiam de explicações honestas e adequadas à idade, em vez de silêncio total.
A sétima é o engenho perante a escassez: reutilizar, reparar, inventar. A investigação sobre criatividade e inovação mostra que restrições de recursos podem empurrar para soluções mais criativas e adaptativas, embora nem toda a escassez seja “virtuosa”, sobretudo quando se torna privação.
A oitava é aprender pelo exemplo, não por “discursos”. Isto liga-se diretamente à teoria da aprendizagem social: as pessoas aprendem muitos comportamentos observando modelos (pais, professores, adultos de referência) e os resultados desses comportamentos.
A comunidade que cuidava, e o que fica para hoje
A nona lição é a comunidade como rede de apoio: o “bairro” a olhar por todos. Na investigação sobre “eficácia coletiva” (coesão social e controlo informal), há associações entre comunidades mais coesas e melhores resultados em indicadores ligados ao bem-estar e comportamento de crianças e jovens.
No fim, e segundo o La Razón, a utilidade não é idealizar as décadas de 1960 e 1970, mas escolher o que faz sentido recuperar em 2026: mais tempo de tédio produtivo, mais brincadeira livre, mais tolerância ao erro e mais ligações reais à comunidade, sem abdicar do que hoje sabemos sobre proteção, saúde mental e direitos das crianças.
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