Num costume que pode surpreender muitas pessoa, uma parte significativa dos homens casados num dos países mais visitados do mundo entrega o seu salário à esposa e recebe, em troca, uma mesada para despesas pessoais. Trata-se de um modelo familiar ainda amplamente praticado, mesmo num contexto de modernização social e laboral.
Segundo dados citados pela BBC, esta realidade é observada no Japão, onde cerca de 74% dos homens casados entregam mensalmente a totalidade do seu salário à mulher. Em muitos lares japoneses, é a esposa que assume a gestão do orçamento doméstico, pagando contas, controlando os gastos e distribuindo uma mesada fixa ao marido, prática conhecida localmente como okozukai.
Uma prática com raízes históricas
Esta divisão de responsabilidades remonta ao período pós-Segunda Guerra Mundial, quando o Japão iniciou uma fase de crescimento económico rápido. Os homens passavam longas horas fora de casa, concentrados no trabalho, enquanto as mulheres assumiam o controlo total das despesas familiares.
De acordo com a mesma fonte, este modelo consolidou-se e ainda hoje é comum, sobretudo entre os casais com filhos.
Na prática, o salário é depositado na conta conjunta ou pessoal da esposa, que organiza os pagamentos regulares e estabelece um valor mensal para o marido utilizar livremente. Em muitos casos, esse montante ronda os 30.000 ienes, cerca de 173,70 euros.
A lógica por detrás deste sistema prende-se com o rigor na gestão das finanças familiares. Segundo a mesma fonte, muitas mulheres japonesas são vistas como poupadas e organizadas, sendo habitual que mantenham registos detalhados das despesas em cadernos específicos chamados kakeibo. Este hábito ajuda a controlar o orçamento mensal e permite identificar áreas onde é possível cortar custos.
Realidade actual e tendências
Apesar de ser uma prática ainda prevalente, há sinais de mudança. Nos últimos anos, sobretudo entre os casais mais jovens ou com duplo rendimento, tem-se verificado uma maior partilha da responsabilidade financeira. Ainda assim a gestão exclusiva por parte da mulher continua a ser uma realidade em muitos lares japoneses.
Alguns maridos dizem apreciar o facto de não terem de se preocupar com contas ou orçamentos. Outros, no entanto, revelam frustração pelo valor reduzido da mesada e pela falta de autonomia na tomada de decisões financeiras.
Há inclusive relatos de homens que tentam negociar um aumento na mesada mensal ou recorrem a trabalhos extra para reforçar os seus rendimentos pessoais.
A mesma fonte dá conta de que esta dinâmica conjugal é frequentemente abordada na imprensa japonesa, com artigos e debates sobre o equilíbrio entre confiança, tradição e independência financeira. Em revistas e programas televisivos, é comum surgirem sugestões para melhorar a comunicação entre os cônjuges quanto à gestão do dinheiro.
Um sistema cultural que levanta questões
Para muitos ocidentais, esta prática pode parecer invulgar, mas no Japão é encarada como parte de uma estrutura familiar organizada e funcional. Não se trata, segundo a mesma fonte, de submissão ou imposição, mas antes de uma divisão de papéis que foi sendo construída ao longo de décadas, com base na confiança e na funcionalidade.
Mesmo entre os casais que seguem este modelo, há uma valorização crescente da transparência e do diálogo. Alguns homens referem que, apesar de entregarem o salário, têm acesso às contas e participam em decisões mais importantes, como poupanças, investimentos ou compras de maior valor.
No entanto, permanece a ideia de que o controlo financeiro deve estar nas mãos da pessoa considerada mais apta a geri-lo e em muitos casos essa pessoa continua a ser a esposa. Este entendimento está culturalmente enraizado e dificilmente será alterado de forma abrupta, mesmo com as mudanças sociais em curso.
No Japão actual, o equilíbrio entre tradição e modernidade continua a definir muitas esferas da vida familiar. E, tal como acontece noutras áreas, também na gestão do dinheiro o peso da história e dos costumes permanece visível.
Como sublinha a BBC, esta prática continua a ser uma característica marcante de milhares de lares japoneses, surpreendendo quem vê de fora, mas mantendo a sua lógica no interior de uma cultura com fortes raízes familiares.
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