Com vista desafogada para o Atlântico e uma silhueta urbana revestida a vidro, há uma cidade no norte de Espanha que escapa aos roteiros turísticos mais convencionais, mas que acumula distinções raras.
Situada na Galiza, a Corunha (ou La Corunha) é uma cidade portuária com cerca de 245 mil habitantes, sendo a segunda maior da região. O seu centro urbano estende-se por uma península que avança sobre o mar, conferindo-lhe uma relação direta e constante com o oceano. Esta geografia particular não é apenas cénica, moldou a história da cidade ao longo dos séculos.
A ligação ao mar está presente em quase todos os símbolos da cidade, sendo o mais emblemático a Torre de Hércules. Construída no século I pelos romanos, trata-se do farol mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Com 55 metros de altura, continua a orientar embarcações, agora como Património Mundial da UNESCO.
Uma fachada de vidro virada para o Atlântico
A cidade ganhou também o apelido de “cidade de cristal”, devido às galerias envidraçadas que cobrem os edifícios ao longo da marina e do Paseo Marítimo. Estas estruturas, instaladas originalmente para proteger os interiores dos ventos atlânticos, refletem a luz do mar e criam um efeito visual característico e reconhecível à distância.
Na praça central, a Praza de María Pita presta homenagem à heroína local que, em 1589, liderou a resistência civil contra a armada inglesa comandada por Francis Drake. É um dos espaços públicos mais amplos da Galiza, rodeado por edifícios históricos e pelo edifício neoclássico do concello (câmara municipal).
Apesar de estar imersa em tradições galegas, com raízes celtas ainda visíveis em festas e música, a cidade de Corunha tem uma vida urbana dinâmica e um perfil cosmopolita. As praias urbanas, como Riazor e Orzán, fazem parte da paisagem do quotidiano, frequentadas tanto por moradores como por surfistas e turistas discretos.
Um império discreto com origem local
Mas a verdadeira revolução económica da cidade começou no final do século XX, quando um pequeno negócio de roupa deu origem a um império global. A Corunha é o berço da Zara e da Inditex, grupo fundado por Amancio Ortega. A primeira loja foi aberta no centro da cidade em 1975, e a sede da multinacional continua localizada nos arredores da cidade, em Arteixo.
De acordo com o jornal El País, o impacto da Inditex na economia local é significativo, empregando milhares de pessoas e influenciando o urbanismo e a mobilidade da região. A empresa contribuiu também para colocar a Galiza no mapa da moda mundial, com uma estrutura logística que liga A Corunha a centros comerciais em todos os continentes.
Segundo a mesma fonte, o próprio Amancio Ortega mantém uma relação próxima com a cidade. Através da fundação que leva o seu nome, foram feitos investimentos em saúde, cultura e educação na região, contribuindo para o desenvolvimento social e urbano.
Recomendamos: Alerta europeu para inseto ‘gigante’ que tem invadido as praias do Mediterrâneo e pode mesmo chegar a Portugal
Cultura e ciência à beira-mar
No entanto, a cidade não vive apenas à sombra do gigante empresarial. A sua oferta cultural inclui museus como o Domus (primeiro museu interativo dedicado ao ser humano), o Museu de Belas Artes e o Aquário Finisterrae, onde é possível observar tubarões em ambiente subaquático.
A nível patrimonial, além da Torre de Hércules, destaca-se o castelo de San Antón, antiga fortaleza defensiva e hoje museu arqueológico. O passeio marítimo da cidade, com mais de 13 km, é um dos mais extensos da Europa e atravessa zonas verdes, miradouros e praias.
Gastronomia atlântica com sotaque galego
A gastronomia local também é motivo de visita, com destaque para o polvo à feira, o lacón com grelos, e os mariscos frescos. O mercado da praça de Lugo e os restaurantes nas ruas de tapas, como a Calle de la Franja, fazem parte do circuito obrigatório para quem aprecia cozinha galega.
Conforme refere o site oficial de turismo da Galiza, a cidade é uma porta de entrada para conhecer outras localidades da província da Corunha, como Betanzos, Ferrol ou Santiago de Compostela, facilmente acessíveis de comboio ou automóvel.
Duas línguas, uma identidade
A cidade de Corunha tem ainda uma identidade linguística própria. O galego e o castelhano coexistem no espaço público, sendo o galego a forma oficial utilizada nas instituições. Esta dualidade linguística reforça o carácter culturalmente distinto da cidade dentro de Espanha.
Nos últimos anos, a cidade tem investido na reabilitação urbana, na mobilidade ciclável e na modernização dos transportes públicos. O aeroporto da Corunha liga-se diariamente a Madrid, Barcelona e outras cidades espanholas, facilitando o acesso à região.
Um clima brando e uma cidade em mutação
O clima atlântico, húmido e temperado, faz com que os invernos sejam suaves e os verões frescos, sendo uma alternativa apreciada por quem prefere evitar o calor intenso do sul de Espanha.
Em suma, de acordo com o El País, Corunha distingue-se pela sua herança romana, a sua arquitectura envidraçada, a ligação ao mar e uma inesperada dimensão global no mundo da moda.
Para quem procura uma escapadinha diferente, com mar, cultura e história, sem multidões nem clichés, Corunha oferece uma combinação rara de autenticidade e modernidade.
Leia também: Especialistas lançam o alerta: este é o erro que quase todos cometem ao guardar ovos no frigorífico
















