Durante o último ano, as autoridades de saúde europeias têm vindo a registar um aumento preocupante no número de casos de intoxicação alimentar associados a produtos prontos a consumir contaminados. No centro desta tendência estão as saladas embaladas, habitualmente comercializadas como seguras e lavadas, mas que agora estão a ser reavaliadas à luz de novos dados laboratoriais.
De acordo com o Daily Mail, uma análise a 3.320 amostras de folhas de salada pré-embaladas, recolhidas entre outubro de 2021 e setembro de 2022, revelou a presença de oocistos de Toxoplasma gondii em cerca de 4% das amostras. Este parasita, conhecido por causar toxoplasmose, pode provocar danos cerebrais, respiratórios e até morte em indivíduos com o sistema imunitário comprometido.
A presença destes alimentos contaminados poderá estar associada ao contacto com fezes de animais durante o cultivo, sobretudo quando a irrigação se faz com água não tratada. Como estas folhas são consumidas cruas, o risco de transmissão do parasita aumenta, refere o mesmo jornal.
A ausência de testes obrigatórios levanta dúvidas
Segundo os investigadores, os regulamentos europeus e britânicos não exigem que os produtores realizem testes regulares a parasitas em hortícolas frescos. Isto significa que muitos casos de contaminação podem estar a passar despercebidos.
Os investigadores sublinham, na revista Eurosurveillance, que a presença do parasita poderá ser bastante mais comum do que os números actuais indicam.
Os dados agora conhecidos indicam que amostras positivas foram encontradas em países como França, Espanha, Alemanha, Noruega, Dinamarca, Reino Unido e também Portugal. De acordo com a mesma fonte, a maioria destas saladas contaminadas foi embalada nos meses de inverno.
Casos em crescimento acentuado
A toxoplasmose pode manifestar-se com sintomas gripais, dores musculares e, em casos extremos, complicações neurológicas ou aborto espontâneo, no caso de infeções durante a gravidez. O Daily Mail refere ainda que metade da população britânica terá tido contacto com o parasita até aos 50 anos, embora muitos casos passem despercebidos.
Simultaneamente, outro tipo de contaminação tem sido identificado nas folhas de alface: a estirpe STEC de Escherichia coli, uma bactéria capaz de provocar falência renal e distúrbios hemorrágicos. Esta infeção tem vindo a aumentar significativamente, com as autoridades de saúde britânicas a registarem um surto com 288 infetados e três mortes só no último ano.
O caso da alface Apollo e os perigos ocultos
No centro deste surto esteve uma variedade específica de alface tipo manteiga, conhecida como Apollo. Segundo o mesmo jornal, o consumo de saladas contaminadas com esta estirpe de E. coli está a ser associado a refeições prontas, como sanduíches e saladas embaladas, consumidas sem qualquer cozedura.
Um dos casos mais mediáticos ocorreu no Reino Unido, com uma jovem de 17 anos internada em estado crítico após consumir alimentos contaminados num mercado de Natal. A textura rugosa das folhas de alface e o seu consumo cru são apontados como fatores que facilitam a proliferação bacteriana.
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Saladas lavadas não garantem segurança
Apesar de muitas embalagens indicarem que o conteúdo foi previamente lavado, os especialistas alertam que isso não garante ausência de microrganismos. Conforme a mesma fonte, o frio desacelera a multiplicação bacteriana, mas não a impede. Recomenda-se a imersão das folhas em água fria como método mais eficaz de lavagem caseira.
O professor Paul Hunter, da Universidade de East Anglia, explicou que a irrigação com água contaminada, aliada à estrutura da folha de alface, dificulta a remoção de bactérias como E. coli. Acrescenta ainda que a maioria dos legumes é cozinhada ou descascada antes de ser consumida, o que não acontece com as saladas.
Portugal também em risco
Os alimentos contaminados identificados durante a investigação foram embalados em vários países, incluindo Portugal, o que levanta a possibilidade de circulação no mercado nacional.
A crescente preferência dos consumidores por alimentos frescos e prontos a comer poderá estar a contribuir para a exposição ao risco, explicam os cientistas.
A Autoridade de Segurança Alimentar do Reino Unido registou 1.825 incidentes relacionados com segurança alimentar em 2024-25, sendo que 436 envolveram contaminações. Entre estas, a Salmonella liderou os casos, mas surtos por Listeria, Hepatite A e E. coli continuam a aumentar.
A chamada à ação das autoridades sanitárias
Os investigadores defendem a implementação urgente de medidas de controlo mais rigorosas, especialmente para produtos destinados ao consumo cru. É sugerido que futuras investigações incidam sobre todas as fases de produção das saladas embaladas, para reduzir ao máximo o risco de infeção.
Segundo o Daily Mail, os especialistas consideram a lavagem doméstica essencial, mesmo em produtos embalados como prontos a consumir. O aumento de temperaturas e episódios de chuva intensa criam condições propícias à proliferação de bactérias nas culturas hortícolas.
















