Uma das lojas mais antigas e emblemáticas de Portugal, com mais de 135 anos de história e reconhecida pelo seu tradicional licor, enfrenta uma ordem de encerramento iminente. O conflito opõe os atuais gerentes da loja a um investidor estrangeiro que adquiriu o edifício onde o estabelecimento funciona. O desfecho poderá mesmo ser decidido nos tribunais.
A ginjinha do Rossio em risco
Trata-se da Ginjinha Sem Rival, localizada na zona do Rossio, em Lisboa. O novo proprietário do prédio, um empresário alemão, denunciou o contrato de arrendamento do espaço, após ter instalado um hotel no mesmo edifício. A intenção é reabilitar toda a área, o que implicaria o encerramento da loja centenária, conhecida pela venda do tradicional licor de ginja desde 1890.
O gerente da loja, bisneto do fundador, garantiu à agência Lusa que irá “lutar até ao fim” para manter o negócio aberto. Defende que a loja está protegida pelo programa municipal “Lojas com História” até ao final de 2027 e que, por esse motivo, não aceita a ordem de despejo. O caso deverá agora seguir para tribunal, onde a validade do contrato e o alcance da legislação de proteção serão avaliados.
A intervenção da Câmara de Lisboa
Segundo a Lusa, a Câmara Municipal de Lisboa, através do vereador responsável pelo programa “Lojas com História”, tem acompanhado de perto o processo. O vereador Diogo Moura afirmou que o entendimento da autarquia é que a Ginjinha Sem Rival está legalmente protegida até 2027, nos termos da legislação em vigor.
Ainda segundo a mesma fonte, o autarca declarou que a Câmara está a fazer tudo o que está ao seu alcance legal para evitar o encerramento. Garantiu também que, caso o conflito seja resolvido em tribunal, a autarquia está disponível para prestar apoio jurídico à loja centenária.
A Ginjinha Sem Rival é uma das 162 distinguidas pela Câmara de Lisboa no âmbito do programa “Lojas com História”, criado para preservar o comércio tradicional e proteger estabelecimentos com valor histórico, cultural e social. Esta distinção implica uma proteção legal dos contratos até dezembro de 2027.
Proposta rejeitada e acusações de intransigência
O gerente revelou ainda, de acordo com a mesma fonte, que recebeu uma proposta financeira por parte do atual proprietário para a compra do negócio, que considerou “irrisória e ofensiva”. Segundo referiu, foi oferecido um valor de 250 mil euros, que não reflete, na sua opinião, os 135 anos de história e reconhecimento da loja.
A mesma fonte adianta que, apesar da ordem de encerramento, os responsáveis garantem que a loja continuará a funcionar normalmente até que exista uma decisão judicial definitiva. O gerente acredita que está legalmente protegido e espera que o senhorio tenha de avançar com uma ação de despejo formal, que será então contestada em tribunal.
Do lado do proprietário do edifício, a empresa Europe Hotels International defende que o contrato atual não está abrangido pelas regras do programa “Lojas com História”, uma vez que um novo acordo foi celebrado em 2014 com os antigos donos do imóvel, segundo a Lusa.
Um espaço que continua a atrair multidões
Enquanto decorre o processo, centenas de turistas continuam a visitar diariamente a Ginjinha Sem Rival, procurando provar o tradicional licor de ginja que se tornou um símbolo cultural da capital portuguesa.
Segundo a mesma fonte, o movimento permanece intenso e o estabelecimento mantém o seu funcionamento habitual, sem alterações visíveis.
O Fórum Cidadania LX, uma das entidades que apoiou a criação do programa “Lojas com História”, manifestou publicamente o seu desagrado com a situação. Paulo Ferrero, representante da associação, recordou à agência Lusa que há 15 anos a loja esteve também em risco de fechar, o que ajudou a mobilizar a criação da atual legislação de proteção.
O ativista defendeu que casos como este revelam falhas na política de urbanismo comercial e criticou a falta de medidas concretas para preservar o património imaterial da cidade. Considera que as decisões camarárias, por vezes, não são suficientes para garantir a continuidade das lojas históricas.
Comunidade mobiliza-se
Apesar das incertezas, o espaço continua aberto ao público e prepara-se para receber uma ação de solidariedade promovida pela comunidade local.
De acordo com a mesma fonte, está prevista uma concentração no dia 5 de julho, às 20h00, junto à entrada da loja. A iniciativa é aberta a todos e pretende mostrar apoio à continuação do espaço.
Segundo a mesma fonte, a Câmara de Lisboa está também a preparar uma proposta de revisão do regulamento das “Lojas com História”, com o objetivo de permitir o alargamento do número de estabelecimentos abrangidos. Este trabalho está a ser desenvolvido com a colaboração de 14 municípios.
Por fim, a autarquia defende que o Governo deverá clarificar os direitos dos novos contratos de arrendamento e reforçar a proteção de negócios que, para além do valor histórico, tenham viabilidade económica e relevância cultural, segundo a Lusa.
















