O farmacêutico Sento Segarra voltou a pôr o foco na saúde do fígado ao defender que os licores/destilados de alta graduação são a bebida alcoólica “mais agressiva”, acima do vinho e da cerveja, pela carga metabólica e pela formação de acetaldeído durante o processamento do álcool no organismo.
De acordo com o portal espanhol La Razón, o alerta foi partilhado pelo próprio nas redes sociais e ecoado por meios de comunicação em Espanha, que destacam a ideia de que “beber só ao fim de semana” não anula o impacto no fígado.
No essencial, Segarra aponta o dedo aos destilados (como whisky, vodka, rum, gin ou licores de alta graduação), sobretudo quando consumidos em “shots” ou em combinados, por levarem o organismo a lidar rapidamente com doses elevadas de álcool.
Porque é que os destilados “pesam” mais
Uma parte importante da explicação está no modo como estes produtos são normalmente consumidos: com maior teor alcoólico, é mais fácil ingerir muito etanol em pouco tempo, o que tende a aumentar os picos de álcool no sangue, e isso também significa mais trabalho metabólico num curto período. Estudos de absorção sugerem que bebidas como “vodka/tonic” podem levar a picos de alcoolemia mais altos do que cerveja ou vinho, mesmo com quantidades semelhantes de etanol.
Do ponto de vista bioquímico, o mecanismo é conhecido: a maior parte do álcool é metabolizada no fígado e, numa primeira etapa, o etanol é convertido em acetaldeído, um composto tóxico, antes de ser transformado em acetato por outra enzima.
O acetaldeído é amplamente descrito na literatura científica como um dos principais agentes de dano associado ao álcool, por conseguir interferir com proteínas e ADN e contribuir para inflamação e lesão hepática quando a exposição é elevada ou repetida.
O que a ciência diz e o que é opinião
Dito isto, convém separar a mensagem “de impacto” da realidade clínica: em termos de risco, o fator decisivo costuma ser a quantidade total de álcool (etanol) e o padrão de consumo ao longo do tempo — e os destilados podem ser mais problemáticos porque facilitam consumos rápidos e elevados, não por serem “misteriosamente” diferentes do ponto de vista químico.
É aqui que entra o consumo episódico excessivo. O NIAAA define “binge drinking” como um padrão que, num adulto típico, corresponde a 5 ou mais bebidas (homens) ou 4 ou mais (mulheres) em cerca de duas horas; o CDC usa critérios semelhantes. E, segundo o NHS, episódios de ingestão muito elevada num curto período podem desencadear hepatite alcoólica, mesmo fora de um padrão diário.
Além disso, organizações internacionais têm vindo a reforçar que não existe consumo de álcool totalmente “isento de risco”: a OMS sublinha que mesmo baixos níveis podem causar dano e que o risco varia com quantidade, frequência e características individuais.
Como reduzir risco sem “moralismos”
Na prática, se a preocupação é o fígado, o ponto central é evitar picos e acumulações: reduzir a quantidade, espaçar bebidas, comer antes e durante, e desconfiar de “shots” e misturas que aceleram o ritmo (o cenário típico em que os destilados passam de “um copo” a várias doses).
Quem tem doença hepática conhecida, toma medicação com impacto no fígado, ou nota sintomas persistentes (cansaço extremo, icterícia, dor no quadrante superior direito, náuseas prolongadas) deve procurar aconselhamento clínico, e, em grupos específicos como grávidas e menores, a recomendação é evitar álcool ou qualquer bebida alcoólica.
A polémica, no fundo, serve para uma mensagem simples: não é “vinho vs. cerveja vs. destilados” como se fossem mundos separados, é sobretudo a dose, a frequência e a velocidade, de acordo com o La Razón. E, nesse terreno, os destilados de alta graduação ganham vantagem, pela pior razão possível.
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