A discussão sobre a compra de peixe congelado no supermercado costuma dividir opiniões, mas a verdade é que, entre preço, segurança alimentar e impacto nos oceanos, há detalhes no rótulo que podem mudar completamente a escolha e evitar compras às cegas.
Para a DECO PROteste, a ideia de que o congelado é automaticamente inferior ao fresco é um mito, e pode sair caro. A associação lembra que o peixe congelado “até pode ser melhor do que o fresco, em especial, se for congelado imediatamente após a captura, o que permite preservar a qualidade e os nutrientes.”
O que está em causa nesta escolha
Em Portugal, o consumo de pescado é elevado e o orçamento familiar sente o peso dos aumentos. Foi nesse contexto que a fonte anteriormente citada comparou, em maio de 2024, preços de 11 espécies em mercados e supermercados, cruzando opções frescas e congeladas, de aquicultura e selvagens, e diferentes formatos de venda.
A conclusão prática é simples: congelado não é sinónimo de pior, mas também não significa que “vale tudo”. Há diferenças entre marcas, processos e transparência na informação prestada ao consumidor.
Quando o congelado joga a favor do consumidor
O ponto decisivo é o tempo. Se o pescado é tratado e congelado rapidamente, a qualidade pode ficar mais estável do que num peixe que passou dias em transporte, balcão e frigoríficos, mesmo mantendo aspeto “fresco”. É por isso que a mesma fonte chama a atenção para o congelamento logo após a captura como fator que ajuda a preservar qualidade e nutrientes.
Depois, há um segundo lado: o da segurança. Num produto tão perecível, a cadeia de frio e a forma como o consumidor transporta e guarda o peixe em casa são quase tão importantes como a escolha no supermercado.
As siglas do rótulo que interessam mesmo
A recomendação mais repetida é olhar para certificações e rastreabilidade: “produtos com selos de sustentabilidade (MSC e ASC) ou com comprovativo de compra em lota (CCL)”. O Marine Stewardship Council (MSC) é uma certificação associada a pescado capturado no mar, enquanto o Aquaculture Stewardship Council (ASC) se aplica a peixe de aquicultura, com regras e auditorias independentes.
Já o CCL, comprovativo de compra em lota, é um selo ligado ao pescado transacionado em lotas nacionais, com controlo e rastreio desde a captura, e que, segundo a mesma fonte, valoriza o setor das pescas em Portugal.
Sustentabilidade também depende de como se pesca
Além dos selos, recomenda-se atenção ao método de captura, apontando como opções mais sustentáveis a “pesca de linha ou de rede de emalhar”. Isto não significa que a aquicultura seja “o vilão”, nem que o peixe selvagem seja sempre “o herói”. A própria DECO PROteste sublinha que existem técnicas de aquicultura mais sustentáveis do que outras, e que a rotulagem pode ser uma ajuda real para escolher melhor.
Nem todo o ultracongelado é igual
Mesmo dentro do congelado, há armadilhas. Num teste a postas de pescada ultracongelada, a mesma fonte refere que a frescura, higiene e conservação foram, em geral, seguras, mas detetou “algumas incongruências no peso”, com o peso líquido escorrido a ser o fator negativo em algumas marcas.
E há casos em que o problema passa pela água. Num artigo de outubro do ano passado, a mesma alerta que “o aumento artificial do peso do polvo ultracongelado, através da adição de água, continua a ser frequente”, levantando questões de transparência para o consumidor. A vidragem, a tal camada fina de gelo que protege o pescado, pode ser útil para evitar desidratação. O excesso é que pode distorcer a perceção do que se está realmente a pagar.
O que observar no congelador do supermercado
Num guia de compras, os especialistas recomendam comprar peixe congelado por último e verificar sinais simples: temperatura de conservação igual ou inferior a -18 ºC, embalagem bem fechada, ausência de gelo solto, coloração típica e “camada de gelo fina e homogénea e sem vidragem excessiva”, além de evitar zonas secas e amareladas (sinais de desidratação).
Em linguagem do dia a dia: se a embalagem parece “nevada”, com gelo solto lá dentro, ou se o peixe tem manchas estranhas, é razão para desconfiar e comparar alternativas.
Em casa, a regra é não quebrar a cadeia de frio
O cuidado não termina na caixa do supermercado. É aconselhável transportar congelados num saco isotérmico e a arrumar de imediato em casa. E há uma regra que evita muitos erros comuns: “Não deve congelar um alimento duas vezes: perde as propriedades nutritivas.”
Na descongelação, a recomendação é privilegiar o frigorífico, ou métodos rápidos e seguros (como água fria com a embalagem fechada), consumindo depois o quanto antes, de acordo com a DECO PROteste.
Onde entra o Lidl e esta conversa dos selos
A aposta em certificações tem vindo a ser usada também por retalhistas como o Lidl Portugal, que foi distinguido pelo MSC como “Supermercado Líder em Pesca Sustentável” na 1.ª edição dos Prémios Mar Para Sempre, em novembro de 2024. Numa altura em que muitos consumidores procuram poupar sem abdicar de qualidade, este tipo de sinalização no rótulo pode ser o ponto de partida mais simples para comprar melhor.
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