Após conhecer os resultados da primeira volta do ato eleitoral para as Presidenciais de 2026, decidi escrever uma reflexão sobre o impacto das sondagens no comportamento dos eleitores, em termos de tomada de decisão sobre em quem devem votar.
Poder-se-ia colocar como questão de partida para esta reflexão: As sondagens preveem efetivamente os resultados eleitorais?
Diz-se frequentemente que “as sondagens valem o que valem”. Em geral, diz-se isto como crítica ao rigor das previsões apontadas nas sondagens, feitas muitas vezes com menos de 500 participantes, a partir dos quais se generaliza para os mais de 10 milhões de eleitores. Isto é, várias sondagens apresentam resultados com base numa amostra de menos de 0,005% de sujeitos da população total.
Não colocando em causa o rigor metodológico que os estudos procuram ter, a verdade é que as amostras utilizadas são muito reduzidas.
É por isso que os resultados obtidos em diferentes sondagens são muito dispares e ainda mais quando comparados com os resultados que depois se vêm a verificar, muitas vezes ultrapassando a chamada “margem de erro” das sondagens.
Só se poderia saber da exatidão dos resultados apresentados pelas sondagens, caso estas não fossem dadas a conhecer ao público, sendo só conhecidas após o ato eleitoral, permitindo comparar os resultados previstos pelas sondagens com os resultados realmente obtidos pelos vários candidatos. É por isso que as sondagens feitas no próprio dia das eleições, designadas “à boca das urnas”, são as que apresentam um nível de fiabilidade maior, aproximando-se mais dos resultados efetivamente verificados.
Mas, então, para que servem as sondagens?
Poderíamos responder dizendo que, afinal, as sondagens não preveem, mas podem fazer acontecer.
Isto tem a ver com uma evidência científica há muito identificada pelas investigações em Psicologia, a tendência do sujeito para agir no sentido de concretizar as expetativas.
Assim, têm sido realizadas múltiplas investigações que comprovam o efeito das expetativas do sujeito sobre o seu próprio comportamento, ou sobre a forma como avalia o comportamento dos outros. Isto é, temos tendência a agir no sentido de concretizar as nossas expetativas prévias, ou seja, aquilo em que acreditamos previamente.
No caso das sondagens, caso o sujeito acredite nos resultados apresentados, facultam uma informação com base na qual o sujeito antecipa os resultados previsíveis, criando uma expetativa de que os mesmos virão a ocorrer, a partir do que desenvolve a sua tomada de decisão e o seu comportamento.
Mais do que o rigor dos resultados que antecipam, as sondagens valem pela influência que o conhecimento destas tem sobre o comportamento das pessoas. As sondagens criam uma expetativa coletiva, uma espécie de ilusão sobre os resultados, em função da qual os eleitores regulam o seu comportamento, quase que parecendo que os resultados das sondagens podem ter mais efeito na tomada de decisão na votação, do que a campanha eleitoral feita pelos vários candidatos.
No entanto, as sondagens não esclarecem quase nada, sendo apenas mais informação que se vem juntar a múltiplas informações, muitas vezes falsas, vulgar-me conhecidas como “fake news”, propagadas através das redes sociais, que só dificultam uma tomada de decisão informada por parte dos eleitores.
Neste mundo louco das sondagens, parece haver “sondagens para todos os gostos”, fruto dos tempos ou expressão do mundo louco em que vivemos.
E, neste contexto de obesidade e fadiga informativa, parece que um elevado número de pessoas assume decidir no próprio momento em que está a votar, quase que fazendo depender a sua decisão de alguma notícia de última hora, ou até da foto colocada pelos candidatos no boletim de voto.
Em alternativa a esta tomada de decisão impulsiva, muitos outros decidem com base num sentido estratégico, conforme é explicado pela Teoria dos Jogos. Assim, várias pessoas assumiram que, inicialmente, iriam votar num determinado candidato, mas não o fizeram, votando noutro, devido aos resultados das sondagens, pois parecia que o seu voto não teria utilidade se votassem nesse candidato.
Neste âmbito, vale a pena perguntar quais seriam os resultados da primeira volta das eleições presidenciais, caso não se soubessem os resultados das sondagens durante a campanha eleitoral?
É uma questão à qual ninguém consegue responder, mas esperemos que, na segunda volta destas eleições, a tomada de decisão seja feita com base numa decisão consciente e fundamentada daquilo que será melhor para o nosso país!
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