Mapas são sistemas políticos prevalecentes. Inserem informações de poder e autoridade presuntivamente verdadeiras. Definem limites fronteiriços, denominam povoações, instituem hierarquias, precisam vias de comunicação naturais e humanas. Recorrem a linhas, grafias, cores, sinais, emblemas para induzirem ideias e projeções sobre o espaço para facilitar, ajudar, compreender e explicar o mundo. Assim, são convenções, produtos de cultura e história, constituindo perceções políticas, sejam de palcos de memória ou guias de orientação.
A distinção de um Algarve reinol com linha demarcante foi pioneira no mapa com o título Portugalliae que olim Lusitania, novissima & exactissima descriptio atribuído ao cartógrafo Fernando Alvares Secco, de 1560, cuja biografia é pouco conhecida. Este mapa individualizou também Portugal, sendo o primeiro que, com sucesso, subsistiu até aos nossos dias.

O Reino do Algarve tem grafia distinta, com linha separadora, cor própria num tom rosado claramente distinto do castanho/amarelado de Portugal fazendo parte, todavia, da sua unidade cartográfica. A referência Meridis no seu mar envolvente indica que está numa geografia meridional, a Sul. A grafia “Reino” na vertente terreste, individualiza-o.
Sabe-se que uma versão deste mapa foi incluída na primeira edição do Atlas “Theatrum Orbis Terrarum“, de Abraham Ortelius, publicada em Antuérpia em 1570 . A decadência desta cidade, com o seu assoreamento e o sucesso crescente da autonomia política e riqueza económica das vizinhas Províncias Unidas dos Países Baixos transportaria o espólio destes mapas e cartografia para Amsterdão no século XVII. Aqui, a oficina tipográfica de Joan Blaeu destacar-se-ia.
O mapa seguinte inspirou a capa do livro “Viagem ao Reino do Algarve”. Tem a descrição Portugallia et Algarbia quo olim Lusitania (Portugal e Algarve que outrora foi Lusitânia). Segundo a Biblioteca Nacional de Portugal, seria impresso na oficina de Blaeu por volta de 1635. Respeita-se o nome do primitivo Autor, mas enriquece-se o seu conteúdo. Pode afirmar-se que é o primeiro mapa geopolítico do Reino do Algarve reconhecido enquanto tal e impresso internacionalmente.

Uma ordem política necessita de símbolos. À esquerda do mapa por cima do Algarve, com cores azul e amarela, surge o escudo de armas do Reino do Algarve. Já tinha sido desenhado em Nuremberga por Dürer em 1515 na encomenda do Arco Triunfal pelo Imperador dos Habsburgos Maximiliano I. Com as duas cabeças de reis cristãos e duas de chefes muçulmanos apresenta uma presuntiva pluralidade religiosa e étnica numa unidade.
A grafia Reino do Algarve surge no território a Sul. E também Algarbia na descrição geral do mapa ao lado de Portugal. Voltam a referir-se duas pluralidades de uma outrora histórica unidade Lusitania. O mapa revela, ainda, mais surpresas.
A tipografia de Blaeu é considerada pioneira na massificação e distribuição de mapas para venda a uma burguesia holandesa e europeia ávida de conhecer o mundo para possibilidades comerciais e financeiras. Assim, animais, instrumentos e pessoas com trajes e poses distintas nos mapas traduzem uma perspetiva editorial e empresarial possibilitando a leitura de um espaço geográfico com mais rigor cartográfico, menor densidade espiritual ou religiosa e significados históricos e culturais paralelos indutivos de um mundo mais próximo.
O Algarve e Portugal são representados por duas figuras com trajes semelhantes, ambas de turbante, de semblante otomano ou árabe, um com quadrante, outro com uma balestilha. Parecem constituir uma apologia às notáveis capacidades científicas de navegação marítima e cartográfica destes povos da outrora Lusitânia que estão junto a um Oceanus Ocidentalis. As naus, o hemisfério, as linhas de navegação com rumo e estima, o meridiano, as rosas dos ventos e a exposição deífica às forças da Natureza, com o tridente de Neptuno, completam o conjunto.
Que lições retirar desta representação? Para Portugal e o Algarve? Porque está o mapa colocado de lado esquerdo/direito e não Norte /Sul? Tem importância ter sido impresso em Amsterdão? Que relevância para a presumível data (1635) de sua publicação? Num tempo em que Portugal e Algarve eram Reinos que integravam a pluralidade política dos Reinos de Espanha? Muitas dúvidas com poucas certezas históricas, indutoras de interpretações políticas e simbólicas.
Aceitemos o desafio. Por ser importante para o Algarve como unidade geopolítica, como Reino. A posição de lado pode explicar-se por uma perspetiva centrípeta, de quem observa de cima do centro da Europa para a periferia. A longitude do Algarve e de Portugal em paralelos explicam a importância de ambos enquanto áreas de influência política distintas de Castela. A Ocidente e a Sul.
Com efeito, o meridiano de Tordesilhas, negociado e aprovado em 1494 com bênção papal, foi o repositório histórico de memória da independência da ordem política portuguesa. Essas áreas de influência seriam respeitadas por Espanha no tempo da União Ibérica. Sagres e o Algarve inserem-se nessa compreensão enquanto limites meridionais e ocidentais impulsionadores históricos das descobertas portuguesas e suas perícias na navegação marítima, astronómica e cartográfica. Todas induziram individualidade e independência política. O Algarve é, assim, território geopolítico de estatuto histórico especial em Portugal. Pugna-se pelo seu reconhecimento constitucional.
Sem esquecer que essa longitude foi palco de viagens oceânicas, cosmografia matemática e a construção de uma terra global, a tipografia de Blaeu realça que outros povos, como os árabes e os otomanos também participaram nesse processo, muitas vezes, em disputa com os portugueses e, assim, representam-se como possíveis concorrentes desses espaços e “espiões à distância” de seus conhecimentos.
Nesta viagem reinante, o Reino do Algarve foi identificado em 1635 como um Reino distinto de Portugal. E, por sua vez, este de Espanha. Por uma tipografia de ambições globais em Amsterdão. Numa época em que a ordem política tinha um Rei e um ideário centralizador em Madrid. Certo é que os mesmos não recolheriam simpatias nos Países Baixos.
Concluímos esta viagem com um mapa em globo mundial. De 1688 do académico veneziano Vincenzo Coronelli vendido ou oferecido a muitos reis e príncipes da Europa, incluindo o português D. João V. Apresentam-se duas imagens. Uma à esquerda na coleção permanente do Bayerisches Nationalmuseum em Munique. Outra no exemplar constante da Sociedade de Geografia de Lisboa, este a necessitar de um restauro. A cor verde de Portugal está saliente no exemplar alemão e mais ténue no português.


Ambos apresentam o Algarve como uma delimitação geográfica distinta. Ampliando melhor o seu foco, lá consta a grafia Algarve. Qual a razão? Veneza e/ou 1688 podem constituir explicação para esta geografia política? As dúvidas colocam-se, mas reitera-se o princípio. Os mapas são construções políticas ideais e a intenção de perceção do Algarve como unidade geopolítica distinta foi manifesta. Adianta-se uma possível interpretação.
Em 1635 e 1688, respetivamente, as Províncias Unidas dos Países Baixos e a República de Venena constituíam unidades políticas pequenas e marítimas. As formas centrípetas ou imperiais de cariz centralizador terrestre não recolhiam simpatia junto de seus geógrafos e/ou editores de mapas ou globos. Assim, o Reino do Algarve era entendido como pluralidade política portuguesa individualizada e assente no mar em que as perspetivas de periferia marcavam identidade e especificidade. Os mapas eram, assim, sinais políticos dos seus executantes.
A lição recolhida é dupla. Primeira. As ordens políticas subsistem se a Geografia e História globais o reconhecerem. São seu olho atento e luz inspiradora. O Reino de Portugal libertar-se-ia do jugo político de Madrid em 1668. O Algarve voltou a ser Reino de Além-Mar. Segunda. Que a ordem política portuguesa não postergue o estatuto histórico e geográfico particular do Algarve. Outras ordens políticas e/ ou económicas continuarão a reconhecê-lo e a aproveitá-lo. Pois meridianos e contrapostos paralelos dão ordem à compreensão do mundo.
Viagem ao Reino do Algarve de Virgílio Machado é edição da Universidade do Algarve Editora, 2025. Esgotada a primeira edição e reimpressa. Acessível em https://www.ualg.pt/pub/viagem-ao-reino-do-algarve.
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