Quando o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmou que a Rússia continuará a respeitar os limites do tratado New START enquanto os Estados Unidos fizerem o mesmo, a declaração soou tranquilizadora. Mas há um detalhe importante: o tratado expirou a 5 de fevereiro. Já não está em vigor.
Fica então a pergunta: o que significa continuar a cumprir um acordo que deixou de existir? E, sobretudo, o que muda para o mundo?
O que estava em causa
O New START, assinado em 2010, era o último grande acordo de controlo de armas nucleares entre Washington e Moscovo. Estabelecia limites para o número de ogivas nucleares estratégicas — as de maior alcance — e para os sistemas capazes de as lançar. Mais importante ainda, previa inspeções no terreno e troca regular de informações.

Jurista
Ao dizer que continuará a respeitar os limites se os EUA fizerem o mesmo, Moscovo apresenta-se como responsável - mas também deixa claro que pode mudar de posição a qualquer momento
Não eliminava as armas nucleares, nem tornava o mundo “seguro”. Estados Unidos e Rússia continuam a ter capacidade para destruir o planeta várias vezes. Mas o tratado impunha travões. Criava regras. E, acima de tudo, criava transparência.
Então estamos mais perto de uma guerra nuclear?
Provavelmente não. Uma guerra nuclear deliberada continua a ser altamente improvável. A lógica da dissuasão — a certeza de que qualquer ataque seria respondido de forma devastadora — mantém-se. Nenhum dos lados precisa de aumentar o seu arsenal para garantir essa capacidade.
Mas essa é apenas parte da história.
O perigo maior raramente está numa decisão fria e racional de “carregar no botão”. Está no erro. Num sistema de alerta que interpreta mal um sinal. Num teste de mísseis mal comunicado. Num momento de tensão política em que se presume o pior do outro lado.
Durante a Guerra Fria houve vários episódios em que o mundo esteve perigosamente perto do desastre por engano (já abordámos aqui tal matéria). Foi precisamente para reduzir esse tipo de risco que surgiram os tratados de controlo de armamento.
O que realmente se perde
Ao longo das últimas décadas, vários acordos deste tipo foram desaparecendo. O New START era o último grande pilar ainda de pé. A sua expiração não significa que os arsenais vão aumentar amanhã. Significa algo mais subtil: menos previsibilidade.
Sem inspeções mútuas, sem obrigação formal de troca de dados, cresce a desconfiança. E quando há menos confiança, há mais espaço para suspeitas e reações defensivas que podem ser mal interpretadas.
Num mundo onde as relações entre Rússia e Estados Unidos estão no ponto mais baixo em décadas, a ausência de mecanismos formais de controlo não é um detalhe técnico. É um sinal de fragilidade.
A moratória russa: gesto responsável ou aviso?
Ao dizer que continuará a respeitar os limites se os EUA fizerem o mesmo, Moscovo apresenta-se como responsável — mas também deixa claro que pode mudar de posição a qualquer momento.
Não é o mesmo que ter um tratado assinado, verificado e juridicamente vinculativo. É uma promessa política, não uma obrigação formal.
Um cenário mais complexo
O mundo de hoje também é mais complicado do que o de 2010, quando o acordo foi assinado. A China reforça o seu arsenal, novas tecnologias militares estão a surgir e a competição entre grandes potências intensifica-se. Tudo isto torna ainda mais importante a existência de regras claras.
O New START não era perfeito. Não eliminava armas nucleares. Não resolvia rivalidades geopolíticas. Mas cumpria uma função essencial: lembrava que, mesmo entre adversários, havia limites e havia mecanismos para os verificar.
A sua ausência não significa que o desastre seja iminente. Mas significa que o sistema internacional perdeu mais uma rede de segurança.
E quando falamos de armas capazes de destruir civilizações, até as redes de segurança imperfeitas fazem falta.
Leia também: A natureza e a natureza do país | Por Luís Ganhão
















