Ao longo da última década tenho sentido uma realidade, dentro e fora do consultório, que se repete como um disco riscado, e talvez tu também – “Conheço pessoas. Tenho dates/encontros. Mas não consigo construir nada.”
Pensei durante algum tempo que isto fosse apenas uma impressão clínica, uma espécie de eco seletivo do consultório e da minha comunidade. No entanto, ao investigar um pouco mais, percebi que a verdade é que o contexto relacional mudou globalmente, e há evidência científica e dados sociais que ajudam a colocar uma lupa nesta sensação.
Como acredito que o amor é o motor da vida, e a gravidade invisível que mantém o mundo no lugar, recuso-me a “baixar os braços” perante este cenário – e para construir esperança, acredito que é necessário primeiro assumirmos a realidade: as probabilidades e os custos psicológicos mudaram.
O que antes era sobretudo um encontro mediado por contexto (amigos, trabalho, “bairro”, comunidade) passou, para muita gente, a ser um encontro mediado por sistema: plataformas, perfis, métricas, comparações, micro-decisões rápidas. E isto mexe com o vínculo que (não) se cria, de forma muito subtil.
Durante uma formação com a minha supervisora, onde o tema era, precisamente, a vinculação, navegámos numa conversa sobre este aspeto da modernidade: O dating contemporâneo tende a aumentar a exposição e a reduzir a continuidade. Mais contactos possíveis, menos tecido social a segurar a história.
O que a ciência (já) consegue dizer, e o que ainda não consegue
Há três peças bastante robustas:
A. Conhecer online tornou-se uma via dominante (em vários contextos), e isso desloca “terceiros” que antes davam contexto e confiança.
O trabalho de Rosenfeld e colegas mostra como o “meeting online” ganhou centralidade e como o encontro mediado por amigos/família perde peso, alterando a forma como a confiança se constrói (menos reputação, menos contexto partilhado, menos rede comum).
B. “Muita escolha” pode criar um estado mental mais rejeitante e menos investido.
O estudo sobre choice overload (sobrecarga de escolha) e “rejection mindset” (mentalidade de rejeição) sugere que o acesso contínuo a muitos potenciais parceiros pode treinar uma postura mais pessimista/rejeitadora, e isso afeta a disposição para investir.
C. As apps não são “boas” ou “más” por si; têm efeitos previsíveis sobre cognição e vínculo.
A análise crítica de Finkel e colegas (PSPI) é útil por ser equilibrada: as plataformas aumentam acesso, mas também podem incentivar comoditização – quando começamos a tratar pessoas como se fossem um produto numa prateleira, algo comparável, substituível, “escolhível” com base em características rápidas, em vez de alguém com uma história, complexidade e um processo de vínculo que precisa de tempo – comparação e menor compromisso, dependendo de como são usadas e desenhadas.
No entanto, há muita coisa que ainda só podemos medir qualitativamente através da nossa experiência – ainda é difícil medir porque os dados detalhados das plataformas não são públicos. Portanto, “está mais difícil” não é uma frase com uma única métrica. É um mosaico: mudanças nas rotinas, na economia, na vida social, nas expectativas, no género, e no design do dating (ou estrutura dos encontros).
Apps: quando a facilidade de conhecer colide com a dificuldade de escolher
As aplicações resolveram um problema antigo com uma solução ótima: como conheço alguém fora do meu círculo?
Mas criaram um problema novo: como é que eu paro de procurar e começo a construir?
Há três mecanismos psicológicos comuns:
1. O cérebro entra em “modo catálogo”
Num catálogo, as pessoas tornam-se comparáveis. E, quando tudo é comparável, tudo é substituível.
Isto não significa que sejamos “frios”. Significa que o ambiente nos treina para avaliar mais do que encontrar.
A investigação aponta precisamente para esse risco: navegar e comparar muitos perfis pode aumentar a objetificação e reduzir a disposição para compromisso.
2. Recompensas pequenas e intermitentes: a “máquina” de manter esperança
Match. Mensagem. Silêncio. Match. Conversa. “Talvez”.
Isto é emocionalmente exaustivo porque funciona em reforço intermitente: dá o suficiente para manter a esperança, não o suficiente para consolidar segurança.
E isto liga-se ao que hoje já aparece na literatura como dating app burnout (exaustão emocional, ineficácia, despersonalização da experiência).
3. Ghosting e dissolução “sem narrativa”
Quando uma ligação termina sem explicação, não termina apenas a relação, termina também a possibilidade de “fecho” interno. E isso deixa resíduos: ruminação, culpa, hipervigilância no próximo encontro.
Diferenças de experiência entre género: ruído vs invisibilidade
Aqui, os dados ajudam-nos a sair de uma guerra de narrativas comum entre género (“para vocês é fácil”; “para vocês é impossível”).
O Pew Research Center (2023) mostra um padrão consistente:
- Muitas mulheres reportam sentir-se sobrecarregadas com mensagens e também mais experiências negativas (assédio, conteúdo sexual não solicitado).
- Muitos homens reportam mais insegurança por falta de mensagens/retorno.
Isto cria uma assimetria que distorce o vínculo logo na origem: para umas, o desafio é filtrar ruído e risco; para outros, o desafio é lidar com escassez e rejeição.
E depois há a consequência subtil: quando o início é vivido como “mercado” (seja por excesso, seja por escassez), a tendência é entrar no encontro com menos ternura e gentileza e mais estratégia, o que raramente ajuda a criar intimidade.
Vida offline: o outro lado do problema (e talvez o mais esquecido)
Mesmo quem não usa apps descreve algo parecido: “não conheço pessoas novas”.
E aqui entra uma ideia: o romance moderno exige uma coisa estranha: que encontremos o amor “naturalmente” numa vida que já não cria condições naturais para encontros.
A erosão dos “terceiros lugares”
O sociólogo Ray Oldenburg chamou “third places” aos espaços entre casa e trabalho onde a vida social acontece com leveza: cafés, bibliotecas, associações, clubes, aulas, vizinhança. Sem isto, o amor fica dependente de:
- trabalho (cada vez mais fechado/online), ou
- apps (cada vez mais cansativas).
A ideia de “terceiro lugar” é um bom mapa para perceber porque a vida offline parece mais limitada.
Tempo: a intimidade precisa de repetição, e nós vivemos de exceções
O vínculo não nasce só de química. Nasce de repetição com segurança suficiente para relaxar.
Mas a vida dos 25-45 (carreira, instabilidade, múltiplos trabalhos, deslocações, burnout) cria uma cultura de “janela”: tenho terça à noite, mas não sei como vou estar.
E isto liga-se a algo maior: quando a vida fica demasiado cheia, o dating transforma-se numa tarefa … e a tarefa mata o desejo.
Habitação e transições adiadas (o elefante na sala)
Há dados europeus a mostrar mudanças estruturais: aumento de agregados unipessoais na UE e evidência de que a crise da habitação está a atrasar transições para autonomia e formação de casa (incluindo jovens adultos empregados a viverem com os pais, por país, em 2022).
Isto não “explica” tudo, mas muda o terreno: viver em suspensão entre casa dos pais, partilhas, rendas incomportáveis, altera privacidade, energia, projeto de vida e até a forma como alguém se apresenta no dating (“não sei bem o que posso oferecer”, “não posso prometer muito”).
Em Portugal, por exemplo, a idade média ao primeiro casamento é elevada (indicador do adiamento de etapas formais).
O pano de fundo emocional: mais solidão, menos comunidade
A solidão não é só “não ter ninguém”. É sentir que não se tem com quem pousar.
O Joint Research Centre da Comissão Europeia criou o primeiro inquérito UE-wide sobre solidão (2022) e apresenta estimativas de prevalência e padrões sociodemográficos.
Quando este pano de fundo está presente, é fácil que o dating se torne um movimento pendular:
- procurar para aliviar a solidão
- cansar e retirar-se para não doer
- voltar a procurar porque a solidão volta.
E o que podemos fazer perante este cenário? Ideias práticas que aumentam probabilidade de vínculo (sem moralismos e fórmulas mágicas)
1. Trocar “maximizar escolha” por “maximizar condições”
Uma pergunta simples antes de abrir a app:
Estou a procurar encontro ou “anestesia”?
Se for anestesia, a experiência tenderá a deixar-te pior (porque nunca chega!).
2. Definir um ritual de uso (porque o infinito cansa)
- 2-3 janelas por semana (ex.: 20–30 min)
- sem swiping na cama (associa a ansiedade ao descanso)
- pausa de 1-2 semanas quando surgir saturação (isto é higiene, não desistência)
A literatura sobre fadiga/burnout ajuda a legitimar este cuidado como algo comum, não como “fraqueza”.
3. Menos conversa, mais encontro (com critérios de segurança)
Para reduzir “purgatório de mensagens”:
- Algumas mensagens para testar interesse/valores básicos
- Proposta de café curto (45-60 min)
- Se não há follow-up consistente, não alongar
Isto combate o efeito de reforço intermitente e a fantasia do “quase”.
4. Um “protocolo anti-catálogo”: 3 perguntas que humanizam
Em vez do tentador “o que fazes?”, que claro, faz parte, tentar também outras abordagens, como por exemplo:
- “O que te tem dado energia ultimamente?”
- “O que aprendeste sobre ti numa relação anterior?”
- “O que é um bom domingo para ti?”
Parece pequeno, mas desloca a pessoa de produto para história.
5. Recriar vida offline com intenção (o antídoto dos terceiros lugares)
Se não há “encontros espontâneos”, cria-se probabilidade:
- 1 atividade semanal repetida (aulas, clube, voluntariado, grupo de corrida, coro, dança)
- 1 espaço social fixo (o teu café/biblioteca/mercado, sempre na mesma hora)
- 1 prática mensal de “amigos trazem amigos” (jantares pequenos, não eventos gigantes)
Portanto, a ideia é “Oldenburg aplicada ao amor”: construir ecossistema, não depender de mil matches.
6. Clarificar “estou disponível para quê?”
Muita dor nasce de expectativas desencontradas.
Um gesto adulto (e profundamente sedutor) é dizer cedo:
- “Procuro uma relação” / “procuro conhecer sem pressa” / “não estou disponível para compromisso agora”
Menos ambiguidade não mata o romance; mata o desperdício de energia e tempo.
Uma conclusão…
Talvez o problema dos millennials não seja “não saber amar”.
Talvez seja tentar amar num mundo que:
- facilita o acesso
- dificulta a presença
- treina a comparação
- e enfraquece os lugares onde a vida se cruza.
Para bem de todos, ainda assim, o vínculo continua vivo. Há esperança! Talvez precisemos de ser um pouco mais criativos e corajosos… o que pode significar deixar de tratar o amor como encontro raro e começarmos a tratá-lo como uma condição cultivada.
Referências bibliográficas
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- Eurofound. (2025). Foundational challenges: The housing struggles of Europe’s youth.
- Eurostat. (2024). Household composition statistics (Statistics Explained).
- Finkel, E. J., Eastwick, P. W., Karney, B. R., Reis, H. T., & Sprecher, S. (2012). Online Dating: A Critical Analysis From the Perspective of Psychological Science. Psychological Science in the Public Interest, 13(1), 3–66.
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- LeFebvre, L. E. (2019). Ghosting in Emerging Adults’ Romantic Relationships: The Digital Dissolution Disappearance Strategy. Journal of Social and Personal Relationships.
- Oldenburg, R. (1989/2023). The Great Good Place (conceito de “third place”).
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- Pew Research Center. (2023). Key findings about online dating in the U.S.
- Pronk, T. M., & Denissen, J. J. A. (2020). A Rejection Mind-Set: Choice Overload in Online Dating. Social Psychological and Personality Science.
- Sharabi, L. L. (2024). Susceptibility to dating app burnout over time. New Media & Society.
- Degen, J. L. (2025). Coping with mobile-online-dating fatigue… Current Psychology (Springer).
- Rosenfeld, M. J., Thomas, R. J., & Hausen, S. (2019). Disintermediating your friends: How online dating in the United States displaces other ways of meeting. PNAS, 116(36), 17753–17758.
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