Sempre que morre alguém desaparecem centenas de estórias que a História não regista.
Quem se lembra do porco da minha tia Rosa que desmaiou com o golpe do punhal e acordou na fogueira dos tojos, e, de toda a correria que se seguiu. Já ninguém se lembra das estórias de sobrevivência dos campesinos, ouvidas dezenas de vezes nas conversas repetidas vezes sem conta, da minha avó Maria da Luz com a ti Rosa Cartaxa, nascidas por volta de 1870, recordavam factos e nomes de pessoas do inicio do século XIX, como se o tempo tivesse parado, aquando do desembarque das tropas de D. Miguel vindas dos Açores, talvez entre Tavira e Fuzeta, por volta de 1820, narravam que os campesinos deixaram as portas abertas com a pouca comida, que tinham, na mesa e refugiaram-se nos ribeiros, e aquele que evitou a sua morte por aquelas tropas com a resposta, à pergunta: “de que partido és?” para mim, enigmática “vivam elas e morram eles”.
Quem se recorda das “panelas” de lodo e areias movediças existentes na ria Formosa, em frente à ancestral cidade da Balsa, em Luz de Tavira – talvez antigos poços de água doce onde os habitantes daquela cidade se iriam abastecer – nas quais terão desaparecido pessoas que andavam a ceifar murraça.
Já ninguém se lembra dos bailes nas aldeias onde era “proibido” os rapazes de fora irem procurar namorada, ou das quadras ‘cantadas’ ao som de um acordéon narrando factos que marcaram a vida quotidiana das populações locais, tal como os versos “ó amigos de Peniche, quem cá fica que se lixe, ora bolas ora bolas” a propósito da fuga do Bolinhas para Inglaterra.
Todos os milhares de estórias que se perdem para sempre são parâmetros definidores da cultura popular intrínseca de um Povo. A transmissão oral, quase perdida, feita aos serões em família e vizinhança, era uma fonte de informação e formação dos mais novos. Eu recordo-me de ouvir a minha avó, década de 50, utilizar termos arcaicos, como ‘magana’ e ‘leda’, do tempo de Gil Vicente, o tempo parecia ter parado, hoje anda à velocidade da luz nos telemóveis e nas telenovelas, são tempos socialmente diferentes, por isso não são comparáveis.
Tive o privilégio de conviver com pessoas analfabetas que eram verdadeiras enciclopédias vivas com uma cultura invejável, algumas continuam entre nós, um bem-haja a todas elas.
Algumas pessoas perguntam para quê memorizar ‘coisas que não prestam’? Os portugueses têm o hábito ancestral de não memorizar, através da escrita, as pequenas coisas do dia a dia, mas a vida quotidiana é composta com elas, regista-las é uma obra de arte e de humildade perante os nossos antepassados.
São raras as pessoas que falam nas dificuldades da vida como andar descalços ou com sapatos só com uma parte da sola, ou estar à espera que as galinhas pusessem ovos para poder comprar roupa ao oveiro. Ninguém quer registar que passou fome e frio. As dificuldades do trabalho de sol a sol no campo e nas oficinas raramente são mencionadas. Os museus são óptimos, mas só mostram a parte material.
Registemos todas essas pequenas-grandes estórias que preencheram e moldaram as nossas vidas e as dos nossos antepassados.
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