Ainda não posso votar. Tenho 17 anos e, por isso, a decisão que o país vai tomar nesta segunda volta presidencial não passará formalmente por mim. Mas seria um erro achar que isso coloca qualquer jovem não-votante fora do debate. Pelo contrário. O que está em jogo agora é precisamente a possibilidade de, no futuro, podermos continuar a escolher. E é por isso que esta eleição diz tanto à minha geração.
António José Seguro não é, entre os candidatos da primeira volta, aquele em quem mais me revejo politicamente. Não representa todas as ideias que defendo, nem o projeto de sociedade pelo qual luto. Dizer isto de forma clara é importante. Mas também é importante reconhecer que a segunda volta deixou de ser uma disputa normal entre programas ou sensibilidades. O confronto passou a ser entre a democracia, com todas as suas limitações e imperfeições, e um candidato que construiu o seu percurso político atacando direitos, minorias e os próprios fundamentos do regime democrático.
É nesse ponto que a escolha deixa de ser confortável. Não se trata de entusiasmo, mas de responsabilidade. Não se trata de escolher o ideal, mas de impedir o inaceitável. Há momentos na história em que a neutralidade não é sinal de lucidez, mas de abdicação. Este é um desses momentos.

Estudante na Escola Secundária Dr. Francisco Fernandes Lopes, em Olhão;
tem 17 anos e é ativista do movimento estudantil
A extrema-direita não surge do nada nem se apresenta sempre com tanques na rua. Avança, muitas vezes, normalizando o discurso do ódio, relativizando direitos fundamentais e colocando em causa regras básicas da convivência democrática. Quando chega a posições de poder, fá-lo já depois de ter corroído o terreno comum. É por isso que a resposta não pode esperar pela “prova final”. Quando essa prova chega, costuma ser tarde demais.
Quem é jovem em Portugal sabe que a democracia não é um dado adquirido. Crescemos num país marcado por crises sucessivas, precariedade, dificuldades de acesso à habitação e um sentimento difuso de futuro suspenso. Ainda assim, foi sempre dentro de um quadro democrático que essas lutas se fizeram e se fazem. Defender a democracia não é defender o status quo, é defender o espaço onde a mudança continua a ser possível.
Apoiar António José Seguro neste contexto não significa subscrever o seu percurso político nem apagar divergências legítimas. Significa reconhecer que há um limite que não pode ser ultrapassado. Que há uma diferença fundamental entre um candidato com quem se pode discordar e outro que representa um risco claro para direitos, liberdades e para a própria ideia de pluralismo.
Há quem tente apresentar esta escolha como mais uma jogada tática, como se tudo fosse apenas cálculo eleitoral. Mas para quem ainda nem sequer tem direito a voto, a questão coloca-se de outra forma. O que está em causa é saber se, quando chegar a nossa vez de escolher, o jogo continuará a ser democrático. Se haverá espaço para discordar, organizar, protestar e propor alternativas sem medo.
A história recente, dentro e fora de Portugal, mostra que a extrema-direita não governa sozinha. Beneficia da hesitação, da banalização e da falsa simetria entre projetos profundamente distintos. Tratar como equivalentes uma candidatura democrática e uma candidatura antidemocrática é já tomar partido, mesmo que se diga o contrário.
Este apoio é, por isso, um apoio crítico e consciente. Não nasce da identificação total, mas da compreensão do momento. Não é um cheque em branco, mas um gesto de defesa democrática. Apoiar agora é também exigir amanhã. Exigir mais justiça social, mais igualdade, mais respostas para quem vive do seu trabalho e para quem começa agora a construir a sua vida.
A democracia não se esgota no ato de votar. É um processo contínuo, feito de participação, conflito e esperança. Mas o voto, quando existe, continua a ser uma das suas principais linhas de defesa. Mesmo para quem ainda não pode exercê-lo, o resultado tem consequências diretas.
Escolher António José Seguro nesta segunda volta é, para muitos de nós, escolher para poder escolher. É garantir que o futuro não seja fechado por quem despreza a diversidade, a liberdade e a ideia de direitos universais. É um gesto de contenção do pior para que, depois, possamos lutar pelo melhor.
Não é a escolha perfeita. Mas é a escolha necessária. Porque sem democracia, nenhuma outra escolha é possível.
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