O novo Pacote Laboral apresentado pelo governo desencadeou uma onda de indignação por todo o país. Não é por acaso que, pela primeira vez em mais de uma década, CGTP, UGT e sindicatos independentes se unem para convocar aquilo que se prevê ser uma das maiores Greves Gerais dos últimos anos. Quando um governo tenta impor um retrocesso histórico nos direitos de quem trabalha, a resposta tem de ser firme e tem de ser coletiva.
No Algarve, as consequências deste ataque laboral são particularmente violentas. Aqui, a precariedade não é uma estatística: é o quotidiano. É passar de contrato a prazo em contrato a prazo, é aguentar turnos de doze horas no verão e incerteza no inverno, é ser tratado como mão de obra descartável numa região que vive de um turismo que enriquece uns poucos e sacrifica milhares. O banco de horas individual rouba horas extraordinárias a trabalhadores que já pagam rendas insustentáveis. A flexibilização dos vínculos transforma a chamada época alta numa época de exaustão permanente. A retirada de direitos às recém mães agrava uma região onde quase não há vagas em creches e a natalidade definha. Tudo isto num Algarve onde viver se tornou um luxo, mas trabalhar continua a ser um martírio.
Mas há uma verdade que precisa de ser dita com toda a clareza: este pacote laboral atinge com uma força brutal os jovens.

Estudante na Escola Secundária Dr. Francisco Fernandes Lopes, em Olhão;
tem 17 anos e é ativista do movimento estudantil
A nossa geração merece mais do que contratos descartáveis, horários abusivos e salários que não chegam para viver
A geração mais qualificada da história do país é também a geração mais precarizada. Cerca de 30% dos jovens portugueses já emigraram e não é por espírito aventureiro, como alguns tentam romantizar. É porque o país lhes fecha as portas. E no Algarve, essa porta fecha-se ainda mais cedo.
Os jovens daqui crescem a ver os seus pais esgotados todos os verões, a ver colegas de escola a desistir de estudar para trabalhar sazonalmente, e a perceber desde cedo que futuro e estabilidade raramente cabem na mesma frase. Quem tenta estudar enfrenta propinas pesadas, transportes caros, estágios sem remuneração digna e um mercado de trabalho que oferece tudo menos segurança. Quem tenta trabalhar vê o salário desaparecer em renda, alimentação e transporte, sem espaço para independência ou estabilidade.
Para muitos jovens algarvios, o dilema já nem é escolher ficar ou partir. É perceber quanto tempo ainda conseguem aguentar antes de serem empurrados para fora. O governo, ao aprofundar a precariedade com este pacote laboral, envia uma mensagem cristalina: os vossos direitos podem esperar. Mas não podem. Não quando tantos estudantes dependem de part times que já exploram horas a mais e pagam horas a menos. Não quando a juventude vive sufocada entre o custo de vida, a falta de habitação e a ameaça permanente de contratos instáveis. Não quando cada vez mais jovens são forçados a aceitar qualquer trabalho para sobreviver, mesmo com formação superior.
É precisamente por isso que a Greve Geral também é estudantil. Aquilo que hoje está em causa é o país em que vamos trabalhar, ou abandonar, amanhã. A luta pelos direitos laborais é inseparável da luta pelo direito dos jovens a um futuro digno. Para muitos de nós, a precariedade não é novidade. É rotina. E se não fizermos ouvir a nossa voz agora, os retrocessos de hoje serão as correntes de amanhã.
No dia 11 de dezembro, estudantes, jovens trabalhadores, estagiários, bolseiros, precários e todos os que recusam este retrocesso têm a responsabilidade de aderir à Greve Geral. Não é apenas uma paralisação. É um aviso claro de que não aceitaremos que nos roubem o futuro. A nossa geração merece mais do que contratos descartáveis, horários abusivos e salários que não chegam para viver. No dia 11 de dezembro, não cruzamos os braços. Levantamo-los. Pela dignidade. Pelo futuro. Por nós.
Leia também: Portugal vai ter cortes de água prolongados nestes dias e estas serão as regiões afetadas















