A passagem da depressão Kristin por Portugal continental ficou marcada por vento extremo, cortes de energia em larga escala e um rasto de destruição pouco habitual. No centro deste episódio esteve um fenómeno raro, conhecido como sting jet, que voltou a ser identificado em Portugal oito anos depois da última ocorrência associada ao furacão Leslie. Antes disso, só havia registo de um caso semelhante em 2009.
Cerca de 12 horas após a chegada mais intensa da depressão, ainda havia perto de meio milhão de clientes sem eletricidade em várias regiões do país. De acordo com informações divulgadas pelo Notícias ao Minuto, o sting jet foi um dos principais responsáveis pelas rajadas excecionalmente fortes registadas durante a madrugada, sobretudo na faixa litoral.
Segundo explicou Nuno Lopes, meteorologista do IPMA, em conferência de imprensa, trata-se de um fenómeno raro no contexto da climatologia nacional, com apenas dois episódios comparáveis registados anteriormente.
Rajadas extremas e impacto em poucas horas
De acordo com dados do IPMA citados pelo Notícias ao Minuto, a rajada mais forte medida pelas estações meteorológicas nacionais atingiu os 149 quilómetros por hora, entre as 3 e as 4 da manhã de quarta-feira, no Cabo Carvoeiro. Valores desta magnitude, concentrados num curto intervalo temporal e numa área relativamente limitada, são característicos da atuação de um sting jet.
O fenómeno esteve associado à fase mais ativa da depressão Kristin, que provocou quedas de árvores, danos em infraestruturas, interrupções no fornecimento de energia e, segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, quatro vítimas mortais em Portugal continental, três no concelho de Leiria e uma em Vila Franca de Xira.
O que é afinal um sting jet
Mas afinal, o que distingue um sting jet de outros episódios de vento forte. O IPMA já tinha explicado este fenómeno num artigo técnico publicado aquando da passagem do furacão Leslie, em 2018, um dos raros episódios anteriores em território nacional.
De acordo com essa explicação, o sting jet é uma corrente descendente muito intensa que se pode desenvolver no flanco oeste de depressões extratropicais. Em determinadas condições, essa corrente consegue atingir a superfície, originando rajadas extremamente fortes, que podem ultrapassar os 150 quilómetros por hora, mas apenas numa área reduzida, normalmente localizada a sudoeste do núcleo da depressão.
Segundo os especialistas, estas rajadas resultam de processos evaporativos que ocorrem em níveis médios da massa nebulosa da tempestade. Esse processo provoca arrefecimento do ar, tornando-o mais denso e levando-o a descer rapidamente para níveis mais baixos da atmosfera, acelerando à medida que se aproxima da superfície.
Porque se chama sting jet
A designação sting jet tem origem na forma como este fenómeno aparece em imagens de satélite e radar. A assinatura visual assemelha-se à cauda de um escorpião, mais precisamente ao ferrão, daí o termo inglês sting.
Este aspeto visual foi identificado e estudado pela primeira vez no final da década de 1980 por uma equipa liderada pelo professor Keith Browning, da Universidade de Reading, no Reino Unido, que investigou episódios de vento extremo associados a depressões atlânticas profundas.
Quando aconteceu antes em Portugal
Em Portugal, o primeiro registo deste fenómeno ocorreu a 23 de dezembro de 2009. Segundo o IPMA, esse episódio não esteve associado à transição de um ciclone tropical, mas sim a uma depressão formada integralmente em latitudes médias, que passou por um processo de ciclogénese explosiva, com uma rápida e intensa descida da pressão atmosférica no seu centro.
O segundo caso surgiu em outubro de 2018, com a passagem do furacão Leslie já convertido em depressão extratropical. Nessa ocasião, foi registada uma rajada de 176 quilómetros por hora, o valor mais elevado alguma vez medido na rede meteorológica nacional, ultrapassando o máximo anterior de 169 quilómetros por hora registado em 2015.
Um fenómeno raro, mas com efeitos severos
De acordo com o IPMA, a ocorrência de um sting jet exige uma conjugação muito específica de fatores atmosféricos, o que explica a sua raridade em Portugal. No entanto, quando se verifica, os seus efeitos podem ser particularmente destrutivos, sobretudo devido à curta duração e elevada intensidade das rajadas.
O episódio associado à depressão Kristin vem reforçar a necessidade de atenção redobrada a este tipo de fenómenos, que, apesar de pouco frequentes, podem ter consequências graves num espaço de poucas horas.
















