Era para ser um presente. Um gesto de pai para filha, transformado numa réplica singular dos castelos da Disney. Décadas depois, o que nasceu como fantasia acabou por viver tempos de ruína e esquecimento. No entanto, o cenário não permaneceu inalterado e o enredo deu nova volta com direito a reabilitação e regresso ao mercado imobiliário de luxo.
A mansão situa-se na Malveira da Serra, em Cascais, e está à venda por 24 milhões de euros. De acordo com a NiT, trata-se da antiga Quinta da Felicidade, uma propriedade com cerca de nove mil metros quadrados, requalificada após anos ao abandono. A moradia principal, com três pisos, 19 quartos e 20 casas de banho, é o ex-libris do conjunto, remetendo diretamente para o universo da Disney, tanto pela arquitetura como pelos elementos decorativos.
Origens de uma réplica encantada
Foi nos anos 80 que Carlos Maia Nogueira, empresário do setor da informática, decidiu oferecer à filha um palácio inspirado nos castelos da Disney. Segundo a mesma fonte, o projeto incluía plantas detalhadas e uma autorização para construção com essas características, numa altura em que o empresário liderava a Solbi, empresa então relevante no panorama tecnológico nacional.
A reinterpretação da arquitetura clássica incluía colunas de mármore, piscinas interiores e exteriores, piso radiante e até um bunker privado. Ao longo dos anos, novos edifícios foram sendo adicionados, incluindo um salão de bailes.
O conflito com a Câmara de Cascais
Apesar da grandiosidade do projeto, nem tudo correu como previsto. Escreve a mesma publicação que a Câmara Municipal de Cascais emitiu diversas ordens de demolição, iniciando um conflito jurídico com o proprietário que se arrastaria por anos. Em declarações à SIC, Maia Nogueira referiu que todos os pedidos de licenciamento foram recusados e que, a certa altura, pagou uma multa de “quatro mil e tal contos”.
Conforme a mesma fonte, o Público noticiava já em 1999 a polémica em torno da construção, questionando a facilidade com que se erguia primeiro e se legalizava depois, no contexto do Parque Natural de Sintra-Cascais.
Declínio e abandono
A história da propriedade acompanhou a do seu proprietário. A Solbi encerrou atividade em 2008, com dívidas superiores a 20 milhões de euros. Acrescenta a publicação que, em 2011, Maia Nogueira revelou à revista Exame Informática que vivia então numa cave em Campo de Ourique, com uma pensão de 500 euros mensais.
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Entretanto, os custos de manutenção da moradia aumentaram. O espaço que servira para eventos e formações foi sendo abandonado. Refere a NiT que a propriedade passou a constar do site abandonados.pt, tornando-se ponto de paragem para exploradores urbanos e entusiastas de locais devolutos.
A fama digital e as visitas não autorizadas
Com o tempo, as imagens do que se passou a chamar o “palácio da Disney português” circularam nas redes sociais. Explica o site que páginas como a IG Mansions destacaram a imponência do edifício, envolto em vegetação exótica e com vista para o mar.
Em 2021, a dupla Yellow Jackets, conhecida pelas suas explorações fotográficas, visitou o local. Segundo relataram ao jornal Público, a experiência foi “completamente diferente de tudo o que alguma vez tinham visto e fotografado”. A localização exaca, mesmo assim, manteve-se discreta.
A reabilitação que devolveu a dignidade
O cenário, outrora marcado por graffitis e ruínas, mudou nos últimos anos. A moradia foi alvo de uma reabilitação profunda, que recuperou elementos, como estátuas importadas de Itália e outros detalhes de época. Atualmente, a propriedade apresenta-se sem mobília, mas com pormenores de luxo que contrastam madeira com mármore, e grandes janelas que deixam entrar luz natural.
Um novo capítulo no mercado de luxo
Desde maio, a propriedade voltou ao mercado, listada na plataforma JamesEdition por 24 milhões de euros. Passa a ser assim uma das mansões mais caras do país, sendo que no topo da lista está uma casa em Lagos que custa 27 milhões de euros. A apenas 25 minutos do Aeroporto de Lisboa e cinco minutos da Praia do Guincho, o imóvel posiciona-se como proposta exclusiva para compradores de segmento alto.
A reconstrução do espaço devolveu-lhe o brilho que durante anos se perdeu entre litígios, dívidas e abandono. Ainda que o passado da mansão seja marcado por altos e baixos, o presente revela uma narrativa reescrita, onde a opulência arquitetónica volta a ser o centro da atenção.
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