A cerca de 10 quilómetros da costa de Peniche, no distrito de Leiria, ergue-se uma ilha que muitos desconhecem, apesar de fazer parte do território continental português. A ilha da Berlenga, a maior do pequeno arquipélago das Berlengas, é uma reserva natural onde o turismo é limitado, os carros não entram e o silêncio só é interrompido pelas ondas do Atlântico. E, num cenário invulgar, é possível dormir dentro de uma fortaleza com quase quatro séculos de história.
Um episódio pouco falado da história militar portuguesa
A ilha ganhou notoriedade no século XVII com a construção do Forte de São João Baptista, mandado erguer por D. João IV para defender a costa de ataques de corsários e esquadras estrangeiras. Em 1666, o forte foi palco de um episódio memorável: uma pequena guarnição portuguesa resistiu a uma ofensiva da Marinha espanhola, composta por 14 naus e uma caravela.
Segundo os registos da época, apenas 17 homens liderados por Avelar Pessoa, e munidos com nove peças de artilharia, conseguiram aguentar dois dias de bombardeamento intenso, afundando uma das embarcações inimigas e provocando centenas de baixas. A resistência só terminou por falta de munições e alimentos, e depois de um soldado desertar e revelar a fragilidade dos defensores.
Dormir dentro de muralhas com vista para o mar
Hoje classificado como Monumento Nacional, o Forte de São João Baptista é gerido pela Associação dos Amigos das Berlengas e funciona como casa-abrigo. A experiência de pernoitar na fortaleza é diferente de qualquer outra: não há carros, não há comércio e a iluminação é reduzida. Apenas o som do mar, os muros históricos e o céu estrelado.
O acesso é feito a pé por uma escadaria escavada na rocha e por uma ponte de pedra. No interior, os quartos são simples, com estrutura de albergue, e o ambiente convida à contemplação.
Reserva natural com acesso limitado
A ilha integra a Reserva Natural das Berlengas desde 1981 e é considerada Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO. O arquipélago é composto por três núcleos: Berlenga, Estelas e Farilhões, e alberga importantes colónias de aves marinhas, como o papagaio-do-mar, o corvo-marinho-de-crista e várias espécies de gaivotas.
Para proteger este ecossistema frágil, o número de visitantes está limitado a 350 por dia. Durante a época alta, entre maio e outubro, os barcos partem diariamente de Peniche. Fora dessa janela, a viagem depende das condições do mar e de embarcações mais pequenas.
Grutas, trilhos e mergulhos
Além da vertente histórica, a Berlenga oferece trilhos pedestres que ligam o cais ao forte, ao Farol Duque de Bragança e a grutas naturais, como a Gruta Azul e a Gruta do Flandres. A caminhada é curta, mas íngreme, e exige calçado confortável.
As águas límpidas em redor da ilha são ideais para mergulho. A Reserva Marinha da Berlenga cobre cerca de mil hectares e protege uma rica biodiversidade subaquática. Peixes, algas e formações rochosas criam um cenário perfeito para quem gosta de explorar o fundo do mar.
Um destino ainda pouco explorado
Apesar da sua proximidade ao continente, a Berlenga permanece fora dos circuitos turísticos de massas. O isolamento, a limitação de visitantes e a ausência de infraestruturas modernas fazem dela um destino alternativo para quem procura natureza, história e silêncio.
Visitar a ilha é mais do que uma excursão: é entrar numa cápsula do tempo, onde a natureza ainda dita as regras e onde os ecos do passado se fazem ouvir nas muralhas de pedra. Para quem procura uma experiência diferente e autêntica no litoral português, esta ilha pode ser uma boa opção.
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