A possibilidade de uma nova subida do nível do rio Douro levou, esta segunda-feira, vários comerciantes da zona ribeirinha do Porto a ativar planos informais de prevenção, protegendo mercadorias e reorganizando espaços numa corrida silenciosa contra o tempo. O cenário ainda é de expectativa, mas a ameaça de cheias voltou a instalar-se numa das áreas mais vulneráveis da cidade, num dia marcado pelo agravamento das condições meteorológicas no Norte do país.
De acordo com a agência Lusa, a Proteção Civil Municipal emitiu um alerta preventivo perante a previsão de precipitação intensa e a possibilidade de alagamentos no estuário do Douro. A informação começou a circular durante a manhã e, mesmo antes de qualquer contacto formal, já havia comerciantes a agir por iniciativa própria.
Primeiras reações antes do aviso oficial
Em Miragaia, a meio da tarde, o ambiente era de vigilância constante. Alguns estabelecimentos mantinham as portas abertas, mas com menos clientes do que o habitual.
Clarice Santos, proprietária de um restaurante tradicional, começou cedo a guardar loiças e objetos mais frágeis. Sozinha, fez o que estava ao seu alcance, enquanto aguardava indicações mais concretas. Se a situação se agravar, admite que terá de pedir apoio logístico para retirar equipamentos pesados.
Pouco depois, a presença de um veículo da Proteção Civil junto à Fonte da Colhe reforçou a sensação de alerta. Um aviso em papel, com contactos úteis, medidas de autoproteção e a identificação das zonas historicamente mais expostas, foi entregue a comerciantes e clientes. A mensagem era simples: aguardar, observar e preparar.
Memória das cheias recentes pesa nas decisões
Mais à frente, num pequeno salão de cabeleireiro, a folga transformou-se numa tarde de trabalho improvisado. Lucília Santos subiu móveis, afastou equipamentos do chão e relembrou episódios anteriores em que a água lhe destruiu por completo o espaço. O nervosismo é contido, mas evidente. A experiência ensinou-lhe que, nestas situações, antecipar pode fazer a diferença.
Há também quem confie em sinais menos oficiais. Manuel Santos, dono de um café na zona da Alfândega, explica que aprendeu a ler o território de outra forma. Para si, os primeiros alertas não chegam por telefone. Chegam pelos bueiros. Quando os ratos começam a aparecer, diz, é porque a água não anda longe. Desta vez, ainda não os viu, o que o leva a acreditar que o pior não será imediato.
Ribeira mais vazia e comerciantes atentos ao Douro
Na Ribeira, a chuva persistente e o vento afastaram turistas e deixaram esplanadas vazias. Dentro das lojas, alguns comerciantes liam com atenção o aviso distribuído. Uma proprietária de uma loja de recordações, com vista direta para o rio, explica que o Douro continua calmo. Enquanto assim for, mantém-se tudo no lugar. Se o nível subir, os produtos seguem para o andar de cima, como já aconteceu noutras ocasiões.
A Proteção Civil recomenda o acompanhamento atento dos períodos de enchente, sobretudo quando coincidem com descargas elevadas da barragem de Crestuma. Aconselha ainda a salvaguarda de bens essenciais, a preparação para eventuais cortes de água, gás e eletricidade e o cumprimento rigoroso dos perímetros de segurança que possam vir a ser definidos. É igualmente desaconselhada a circulação ou o estacionamento em zonas propensas a inundações, bem como a travessia de áreas alagadas.
Depressão Joseph prolonga instabilidade meteorológica
Segundo a Lusa, o agravamento do estado do tempo está associado à depressão Joseph, que sucede à Ingrid e que começou hoje a afetar o continente com chuva persistente, vento forte, neve nas terras altas e agitação marítima.
O IPMA prevê que os seus efeitos se prolonguem ao longo da semana, com a passagem de várias frentes até ao fim de semana. Na margem do Douro, a ordem mantém-se: esperar, mas não baixar a guarda.
















