Nos últimos anos, tem-se assistido a uma verdadeira transformação na forma como as famílias escolhem os utensílios para cozinhar. A preocupação com a saúde, a estética e a composição dos materiais levou a uma procura crescente por alternativas aos revestimentos tradicionais, como o Teflon. Neste contexto, surgiram no mercado panelas que prometem ser “não tóxicas”, com aparência de cerâmica e forte presença nas redes sociais. No entanto, esta nova geração de produtos está agora sob escrutínio, com vários especialistas em toxicologia e reguladores a levantar dúvidas sobre a sua verdadeira composição e segurança.
Promessas de saúde e sucesso nas redes
Marcas como Always Pan, Caraway e GreenPan ganharam visibilidade através de estratégias de marketing centradas na saúde, segurança e estética. Apresentadas como alternativas modernas e “livres de químicos perigosos”, estas panelas tornaram-se um fenómeno de vendas, muito impulsionado pela presença em redes sociais.
A ligação a figuras públicas como Selena Gomez, Oprah Winfrey, Stanley Tucci, Drew Barrymore, Gigi Hadid ou Kate Hudson ajudou a construir uma imagem de confiança e de estilo de vida saudável. Durante a pandemia de covid-19, a procura disparou, com a Caraway a registar um crescimento de quase 400% nas vendas. A Always Pan chegou a ter dezenas de milhares de encomendas em espera, tornando-se um símbolo da nova tendência para utensílios de cozinha apelativos, funcionais e, alegadamente, de acordo com a Executive Digest, mais seguros para a saúde.
Composição longe do que se anuncia
Apesar da designação “cerâmica”, estas panelas não são feitas de cerâmica tradicional. Estudos científicos descrevem-nas como “quasi-cerâmicas”, por serem produzidas com alumínio revestido por uma camada obtida através do processo sol-gel, que envolve sílica, metais e compostos orgânicos e inorgânicos.
Esta tecnologia permite criar superfícies antiaderentes sem Teflon, mas levanta dúvidas sobre a presença de outras substâncias que também podem ser prejudiciais. A aparência semelhante à cerâmica tem contribuído para a confusão entre consumidores.
Marissa Smith, toxicologista do Departamento de Ecologia do estado de Washington, nos Estados Unidos, citada pela mesma fonte, alertou para a dificuldade de perceber o que realmente está presente nestes produtos, sobretudo quando a informação é limitada ou protegida por segredo industrial.
Falta de transparência nas fórmulas
Apesar das garantias de segurança dadas pelas empresas, as fórmulas usadas são consideradas propriedade comercial e, por isso, não estão acessíveis ao público. A Caraway afirmou estar disponível para partilhar resultados de testes com consumidores, mas recusa divulgar a composição do revestimento.
Já a Our Place, responsável pela Always Pan, reconheceu que o produto não é feito de cerâmica propriamente dita, mas sim de um material descrito como “precursor de cerâmica”, sem esclarecer em detalhe os seus componentes. Esta falta de clareza levou a acusações de greenwashing, ou seja, a prática de promover um produto como ecológico ou saudável sem que essa imagem corresponda totalmente à realidade.
Substâncias químicas sob suspeita
Análises feitas por entidades independentes e revisões de patentes e documentos legais sugerem a presença de substâncias preocupantes, como dióxido de titânio, nanopartículas, siloxanos, cádmio, chumbo, mercúrio e resíduos de monómeros, refere a mesma fonte.
O dióxido de titânio, por exemplo, está proibido como aditivo alimentar na União Europeia devido a potenciais riscos para a saúde, mas continua a ser utilizado em produtos como utensílios de cozinha, por não haver legislação específica nesse âmbito. Não existem ainda estudos suficientes sobre os efeitos a longo prazo da exposição a estas substâncias através do contacto com os alimentos, o que levanta dúvidas sobre a segurança real destes materiais.
Falta de normas e controlo eficaz
Nos Estados Unidos, não existem limites federais obrigatórios para a presença de chumbo em panelas de cerâmica. O FDA apenas atua se houver migração de chumbo no momento da venda, mas não avalia a segurança após uso continuado ou desgaste do material. O estado de Washington decidiu avançar com medidas mais rigorosas. A partir de 2026, o limite de chumbo em utensílios de cozinha será de 90 partes por milhão (ppm), passando para 10 ppm em 2028. Testes realizados identificaram valores de até 70 ppm em produtos da Always Pan.
Enquanto isso, organizações como a Toxic Free Future apelam a mais fiscalização e responsabilidade por parte das marcas, sublinhando a dificuldade que os consumidores enfrentam para obter informação fiável.
Problemas de durabilidade e desempenho
Além das preocupações com os compostos químicos, muitos utilizadores relatam perda de eficácia dos revestimentos após poucos meses de uso. De acordo com a Executive Digest, o antiaderente deixa de funcionar corretamente e o material apresenta sinais de desgaste.
A temperaturas superiores a 260 °C, os revestimentos sol-gel podem começar a degradar-se, o que aumenta o risco de libertação de partículas para os alimentos. Este limite térmico é inferior ao suportado pela cerâmica tradicional, que resiste a temperaturas mais elevadas. Os mesmos especialistas citados acima alertam que, mesmo que os produtos estejam dentro dos valores legais no momento da compra, o uso frequente e o aquecimento repetido podem alterar as características dos materiais, tornando-os menos seguros com o tempo.
Fiscalização e responsabilidade em debate
Face à popularidade crescente destas marcas, pode ser urgente rever os critérios de rotulagem e a verificação independente das alegações feitas nos materiais promocionais.
Tom Neltner, do grupo Unleaded Kids, citado pela mesma fonte, referiu que as entidades reguladoras estão sobrecarregadas e não têm recursos suficientes para acompanhar todos os casos, o que dificulta a resposta às denúncias sobre metais e compostos tóxicos em panelas. Enquanto não existirem regras mais claras, continua a caber aos consumidores procurar informações detalhadas e estar atentos às recomendações de organizações independentes.
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