Há locais onde uma simples decisão administrativa pode alterar profundamente o equilíbrio de um ecossistema. Uma praia situada numa zona de grande riqueza ambiental viu a sua biodiversidade afetada nos últimos anos, devido à mudança de estatuto promovida pelas autoridades locais. O resultado tem sido alvo de críticas por parte de organizações científicas e ambientais, que denunciam a deterioração de um habitat que até recentemente acolhia centenas de espécies.
A Playa de Calzoa, localizada na cidade galega de Vigo, a 30 minutos de carro de Portugal, é uma das áreas envolvidas nesta polémica.
De acordo com o portal Infobae, a praia encontra-se na foz do rio Lagares, numa zona onde se forma o sapal da Xunqueira, considerado um dos mais relevantes espaços húmidos do município. Este habitat natural servia de refúgio anual a mais de uma centena de espécies de aves, muitas delas protegidas.
Declaração de praia canina contestada
Em 2018, o município de Vigo classificou Playa de Calzoa como praia canina, permitindo a circulação livre de cães na área balnear. Segundo a mesma fonte, esta decisão motivou protestos de organizações ambientalistas, que identificam efeitos negativos sobre o ecossistema.
A presidente da associação ZOA, Ana Prado Comesaña, refere que “esta joia natural de Vigo foi transformada num deserto de biodiversidade e num ponto de conflito máximo devido à má gestão municipal”.
Acrescenta a publicação que a presença constante de animais domésticos gerou acumulação de excrementos, conflitos com banhistas e impactos diretos sobre espécies vulneráveis. Um dos principais alvos desta transformação foi a avifauna local.
Aves em declínio acentuado
A praia era habitat do chorlitejo patinegro, uma ave protegida por legislação da Xunta da Galiza. Também se podiam observar o zarapito trinado, a gaivota-de-cabeça-preta e o garajau-comum. Explica o site Infobae que a simples perseguição de aves por cães, mesmo sem contacto físico, pode ser fatal para muitas espécies, ao comprometer os seus ritmos de alimentação e repouso.
Em 2017, a associação Fontaíña registou a presença de 453 aves aquáticas na zona em apenas algumas horas. No ano seguinte, após a entrada em vigor da nova designação, os avistamentos caíram drasticamente.
Outros animais também foram afetados
Conforme a mesma fonte, não foram apenas as aves que sofreram com a nova utilização da praia. As lontras, também presentes neste habitat, perderam um espaço essencial para a sua subsistência. Esta espécie tem estatuto de interesse comunitário ao abrigo da Diretiva Habitats da União Europeia, o que exige medidas de proteção e criação de zonas especiais de conservação.
A par disso, o sistema dunar local, classificado como habitat natural de interesse comunitário, tem vindo a ser afetado por práticas como a limpeza mecânica da areia, que elimina algas e microorganismos fundamentais à cadeia trófica.
Manifestos, protestos e reações europeias
Sabe-se ainda que mais de 50 organizações conservacionistas e 15 investigadores assinaram um manifesto a pedir a proteção da praia e o fim da designação canina. Em 2020, o apelo foi enviado à Comissão Europeia.
Um ano depois, Bruxelas alertou o município de Vigo para os impactos ambientais negativos resultantes da medida, instando ao cumprimento das diretivas comunitárias relativas a habitats e aves.
Decisão judicial contraria ambientalistas
Apesar dos alertas europeus, o Tribunal Superior de Xustiza da Galiza rejeitou, em 2021, o recurso apresentado pelas organizações ambientais. O tribunal confirmou a manutenção da classificação da praia como zona de lazer canina, escreve o Infobae.
Esta decisão foi criticada pela ZOA e outras entidades, que a consideram insustentável para a biodiversidade local.
Um caso que ultrapassa fronteiras
A situação da Playa de Calzoa não é isolada. O portal Infobae refere que outros locais em Espanha, como Lagoelas (em Cangas do Morrazo), na Galiza, a foz do rio Guadalhorce (em Málaga) ou La Morocha (em Estepona), viram as respetivas praias deixar de ser caninas após relatórios ambientais negativos.
O caso de Vigo atraiu a atenção de figuras públicas, como o cientista Fernando Valladares (CSIC), o ex-futebolista Vlado Gudelj, o músico Abraham Cupeiro ou o naturalista Joaquín Araújo, que se juntaram ao protesto para exigir a recuperação da praia.
A luta continua
A defesa da biodiversidade na Playa de Calzoa mantém-se ativa. Ecologistas e cientistas sublinham a importância de preservar este espaço e esperam que a pressão pública e internacional possa reverter os impactos provocados. Enquanto o tempo passa, o futuro da praia permanece em aberto, entre interesses de recreio e imperativos de conservação.
















