A criação de uma nova classe “premium” em comboios de alta velocidade em França está a gerar polémica e acusações de discriminação, depois de a operadora ter decidido limitar o acesso de crianças a determinadas carruagens. A medida, aplicada em serviços do TGV INOUI, reacendeu o debate sobre conforto, inclusão e o lugar das famílias nos transportes públicos, segundo o Correio da Manhã.
O caso envolve o serviço de alta velocidade TGV INOUI, que passou a disponibilizar carruagens de primeira classe com regras específicas de acesso. A nova oferta dirige-se a um número limitado de passageiros e aposta num ambiente descrito como mais reservado e silencioso.
Segundo a informação divulgada, a classe premium inclui bilhetes flexíveis, atendimento personalizado e acesso a um espaço pensado para garantir maior privacidade durante a viagem. Um dos critérios definidos é a proibição de entrada de crianças, com o objetivo assumido de assegurar o máximo conforto aos passageiros que procuram um ambiente tranquilo.
Críticas à exclusão de crianças
A decisão não tardou a provocar reações críticas em vários setores da sociedade francesa. Instituições e cidadãos apontam a restrição etária como uma forma de discriminação, questionando se o conforto de alguns passageiros deve ser garantido através da exclusão de um grupo específico.
Stéphanie d’Esclaibes, empresária e criadora de um conhecido podcast, defendeu que a necessidade de silêncio em viagens de comboio, sobretudo para quem trabalha, não deve ser alcançada à custa das crianças. De acordo com a fonte acima citada, a empresária sublinhou ainda que a medida poderia servir de ponto de partida para repensar a criação de espaços adequados a famílias e passageiros mais jovens.
Também o economista Maxime Sbaihi criticou a iniciativa, associando-a a uma mudança cultural mais profunda. Numa publicação na rede social X, referiu que a queda da taxa de natalidade contribui para tornar as crianças cada vez mais raras e, consequentemente, para uma menor tolerância à sua presença em espaços públicos.
Reação política ao debate
A polémica chegou igualmente ao plano político. Sarah El Haïry, comissária francesa para a infância, considerou preocupante a mensagem transmitida pela medida. Para a responsável, a ideia de que o conforto dos adultos depende da ausência de crianças é chocante e levanta questões sobre os valores que estão a ser promovidos na sociedade.
As declarações reforçaram o debate público em torno da iniciativa, que ganhou destaque nos meios de comunicação franceses e nas redes sociais, com opiniões divididas entre a defesa do direito ao silêncio e a necessidade de garantir espaços inclusivos, refere ainda a mesma fonte.
Defesa da operadora ferroviária
Perante as críticas, a operadora nacional de comboios de passageiros de França, a SNCF, veio a público defender a medida. A empresa esclareceu que a regra se aplica apenas a crianças com menos de 12 anos e que estas carruagens representam uma parte reduzida da oferta total.
De acordo com a operadora, os lugares da nova classe premium correspondem a cerca de 8 por cento do espaço disponível nos comboios que operam de segunda a sexta-feira, não afetando a generalidade dos passageiros nem a maioria das carruagens existentes.
Um porta-voz da empresa acrescentou ainda que, ao longo dos últimos anos, a operadora recebeu várias pressões para restringir o acesso de crianças a determinadas áreas dos comboios, solicitações que foram sempre recusadas até à criação desta oferta específica.
Debate aberto sobre conforto e inclusão
Segundo o Correio da Manhã, a introdução desta nova classe reacendeu uma discussão mais ampla sobre a forma como os transportes públicos devem equilibrar conforto, eficiência e inclusão. Para alguns, a segmentação da oferta responde a necessidades reais de determinados passageiros. Para outros, a exclusão com base na idade cria precedentes problemáticos.
Enquanto a polémica prossegue, a medida continua em vigor nos serviços abrangidos do TGV INOUI, mantendo-se como um dos temas mais debatidos no setor dos transportes em França nas últimas semanas.
















