O turismo continua a ser um dos motores principais da economia espanhola, mas nos últimos tempos o debate intensificou-se: será este modelo de turismo de massas sustentável para quem vive nas regiões mais procuradas? Entre protestos, bloqueios e tensões, cresce o coro de vozes que dizem não aguentar mais os efeitos negativos de tantos milhões de turistas em Espanha.
Mais turistas, maior impacto
Nos últimos meses, a contestação ao turismo de massas subiu de tom em várias zonas do país vizinho. O que antes se resumia a queixas pontuais e manifestações dispersas, começa agora a ganhar força como um verdadeiro movimento social que exige mudanças profundas no modelo atual, alerta o Infobae.
Segundo dados oficiais, Espanha bateu um novo recorde em 2024, com mais de 93 milhões de turistas internacionais, um aumento de 10% face a 2023. Com o verão à porta, prevê-se que estes números continuem a subir, mas nem todos estão satisfeitos com esse crescimento.
Ibiza e Tenerife em destaque
Nos arquipélagos das Baleares e Canárias, os residentes têm manifestado o seu desagrado através de ações simbólicas. Em Ibiza, um grupo de habitantes bloqueou o acesso à praia de Es Vedrà com grandes pedras, um local muito procurado para festas privadas. Esta ação desagradou a muitos turistas britânicos, mas contou com o apoio dos locais, fartos do desrespeito e do impacto ambiental causado pelo turismo em massa.
Em Tenerife, a situação agravou-se quando ativistas incendiaram uma frota de carros de aluguer em Costa Adeje, zona turística por excelência, imagens que correram mundo e geraram indignação.
Preocupação além-fronteiras
Estes protestos começaram a preocupar os principais países emissores de turistas para Espanha. O Daily Mail destacou o receio crescente entre os britânicos, que continuam a ser os visitantes mais assíduos, mas também entre franceses e alemães, tradicionalmente numerosos no turismo espanhol.
O jornal britânico recordou que, no verão passado, manifestantes culparam diretamente os turistas pelo aumento das rendas e do custo de vida, chegando mesmo a ameaçar bloqueios em terminais e aeroportos caso nada fosse feito para inverter a situação.
Preços que afastam habitantes
Para os moradores locais, os motivos de indignação são claros: o turismo beneficia sobretudo as grandes cadeias hoteleiras e investidores internacionais, deixando para trás a população residente, que se vê confrontada com preços de habitação incomportáveis e um custo de vida em constante subida.
Muitos centros históricos transformam-se em zonas exclusivamente turísticas, enquanto lojas tradicionais, escolas e serviços públicos desaparecem. O desequilíbrio torna-se, assim, impossível de ignorar, de acordo com a fonte acima citada.
Crítica de especialistas ao modelo atual
Especialistas como Raül Valls, do centro de investigação Alba Sud, apontam o dedo a um modelo turístico focado apenas no lucro imediato, sem considerar o bem-estar das comunidades locais ou a sustentabilidade ambiental. Valls alerta para a perda de identidade das cidades, transformadas em autênticos parques temáticos para visitantes de passagem, refere o Infobae.
O investigador Ernest Cañada, da Universidade das Ilhas Baleares, citado pela mesma fonte, confirma esta visão e avisa que as tensões irão aumentar nos próximos meses. “Estamos a assistir ao início de um conflito social que vai agravar-se no pico do verão”, afirma, sublinhando a pressão sobre serviços públicos, a falta de habitação e o cansaço crescente dos residentes.
Verão de incertezas
A imprensa internacional começa a dedicar mais atenção a esta realidade. O tom de muitas reportagens já não é apenas de curiosidade, mas de aviso. O Daily Mail, por exemplo, expressa o receio de que os protestos se radicalizem e resultem em bloqueios de aeroportos ou estradas.
Com a chegada do verão, antecipa-se um período particularmente tenso, com milhões de turistas a chegarem para as férias e comunidades locais que pedem algo mais: respeito, equilíbrio e um futuro digno.
Aumento das taxas turísticas
Uma das alterações mais recentes que afeta diretamente os turistas é o aumento das taxas turísticas em várias regiões espanholas. Em Barcelona, por exemplo, a taxa para hotéis de luxo duplicou, passando de 3,50 euros para 7 euros por noite.
Os passageiros de cruzeiros também passam agora a pagar 6 euros, mesmo que fiquem apenas um dia na cidade. Nas Ilhas Baleares, a taxa de dormida subiu de 4 para 6 euros por pessoa, enquanto em Santiago de Compostela e Toledo foram introduzidas novas taxas entre 1 e 2,50 euros por noite. As Canárias ponderam seguir o mesmo caminho.
A título de curiosidade, saiba agora que Palma de Maiorca foi uma das primeiras cidades espanholas a criar uma estratégia contra o turismo excessivo, proibindo, desde 2018, o aluguer turístico de apartamentos em prédios residenciais. Já em 2023, a cidade de Veneza, em Itália, introduziu uma taxa de entrada para turistas de um dia, medida considerada por algumas cidades espanholas para reduzir o turismo de massas.
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