Depois da morte assumida das utopias, os eleitores recompensaram os candidatos darwinistas, cuja adaptabilidade às desastrosas circunstâncias vingou sobre quem demonstrou acreditar em ideias concretas, na metade inferior da tabela.
Tal traduz-se na ambivalência de uma vitória que não é de Seguro e numa derrota que não é de Ventura. Ambas são do modelo CH, mais popularucho que populista, transformado no padrão a partir do qual tudo se define.
A vitória, além da imposição da agenda política, solidificou-se na instituição do modus operandi da suspeição generalizada, lançando todos contra todos para colher o saque no fim.

Autor, tradutor e editor
Seguro vence por falta de comparência. Não pelo que é, mas pelo que não é, ao estilo do underdog – como Costa na última maioria absoluta
Não o sendo, assédio sexual, lobbying e ajustes directos funcionam como factores de confusão equiparados, numa sociedade onde a sobrevivência radical normaliza a falência moral como sintoma de racionalidade pura.
Equivale-se desconfiança à culpa, redundando ambas na indiferença vigente diante do esmagador quotidiano regulado pela economia.
Também a derrota, não só do CH mas de todo o modelo popularucho, é uma dupla rejeição.
A primeira sobre a pessoa de André e sobre a sua agenda. A segunda sobre o estilo político a que aderiram, com menor escala e eficácia, Marques Mendes, Gouveia e Melo e Cotrim, deserdando no novo centro inclinado à direita, eleitores para quem restou apenas Seguro.

Foto Reprodução Facebook António José Seguro
Seguro vence por falta de comparência. Não pelo que é, mas pelo que não é, ao estilo do underdog – como Costa na última maioria absoluta – partindo da humilhação garantida no repúdio do seu eleitorado natural, conseguiu, por demérito dos oponentes, elevar-se acima das suas ruidosas contendas e apresentar-se como única alternativa mediática, não se comprometendo com nada, comprometendo-se assim com tudo ao mesmo tempo, excepto com a extrema-direita.
É nessa negação que Seguro se modela, resumindo-se a ser o oposto de Ventura, colocando-se à sua mercê e arriscando como ele, ser tudo e o seu contrário ao mesmo tempo.
Seguro dota-se assim da característica mais rentável na era do populismo: a plasticidade discursiva na greve das ideias.
Apesar de Cavaco não ter sido colaboracionista do regime de Salazar, atende a uma certa tradição espiritual da infelixibilidade, do rigor, do autoritarismo e da modernização estrutural do país, materializando-se para muitos como herdeiro desse Sebastianismo.
O percurso eleitoral de Cavaco com quatro vitórias, duas como primeiro-ministro e duas como presidente reflectem não só a dificuldade com que lidamos com a liberdade comum e a alheia mas também que essa desconfiança em relação ao outro, mutila os resquícios da empatia de uma forma que o nosso inconsciente colectivo português, que, já dizia Pessoa, só nascemos por missão ou castigo, se refugia em figuras tendencialmente autoritárias, tendência reflectida na passividade e na negação com que lidamos com os quarenta e oito anos da ditadura de uma forma que permite traçar uma linha directa entre o Cavaquismo do deixem-me trabalhar e do nunca me engano e raramente tenho dúvidas, passando pelo Passismo do não sejam piegas e emigrem até à reciclagem dos valores salazaristas do martírio expressos no sofrimento, orgulhosamente só, pela pátria de André ou na propaganda estilo nacional-cançonetismo em modo chic de Cotrim que deixaria António Ferro, orgulhoso.
Figura inacessível e austera como Tatcher e ao mesmo tempo ícone pop do neoliberalismo como Reagon, ainda que com uma aura popular a beber noutras origens, Aníbal surgia, tal como Ventura se apresenta agora, uma representação supra-partidária, encarnação corpórea da hegemonia falsamente orgânica do mercado sem ceder nem ao sentimento nem ao sentimentalismo.
Beneficiando da primeira leva de subsídios europeus depois da adesão do país à antiga CEE, Cavaco ficou associado à abertura dessas comportas financeiras depois de décadas de privação e fecho ao exterior, como se tivesse sido defensor do estado social quando na realidade limitou-se a colher os frutos que o governo Soares plantou, sem entrar em juízos de valor sobre a relação portuguesa com a Europa e nesse sentido marcou uma clivagem.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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