Li um dia que um antropólogo que estudava tribos africanas colocou uma cesta cheia de frutas debaixo de uma árvore e disse às crianças:
— “O mais rápido a correr até à árvore fica com todas as frutas.”
Quando ele deu o sinal, todas as crianças deram as mãos e correram juntas. Chegando à árvore, sentaram-se e dividiram as frutas entre elas.
O antropólogo, surpreendido, perguntou:
— “Por que fizeram isso? Um só poderia ter ganhado tudo!”
E elas responderam:
— “Ubuntu! Como poderia uma de nós ser feliz se todas as outras ficassem tristes?”.

Esta evidência atingiu-me como um raio! Herdeiros que somos da filosofia ocidental moderna que concebe o sujeito como uma substância autónoma e separada — o famoso penso, logo, existo de Descartes — e vivendo num mundo que valoriza a independência e a competitividade a um grau extremo, torna-se difícil imaginar que existem povos que vivem de outro modo.
A filosofia Africana Ubuntu afirma uma ontologia relacional — o ser humano não é percebido isoladamente. O eu nunca é um sujeito autónomo e independente pois não se constitui sozinho. Pelo contrário, cada um de nós é um elo numa rede de relações inter-dependentes. É através do olhar, da voz, do cuidado e do reconhecimento dos outros que a pessoa se torna pessoa. Assim, a filosofia Ubuntu desafia a lógica individualista e propõe que a essência do humano está na partilha. Esta parábola ilustra-a: o bem-estar individual não pode existir separado do bem-estar coletivo.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, investigadora da Universidade Nova de Lisboa
A filosofia Ubuntu, expressa-se pela máxima umuntu ngumuntu ngabantu — uma pessoa é pessoa através das outras pessoas, ou, eu sou porque tu és — numa visão ontológica e ética profundamente relacional.
Destaco aqui apenas quatro filósofos que considero muito representativos desta corrente filosófica: o sul-africano Mogobe Ramose, refugiado na Holanda durante os anos de apartheid, publica em 1999 o livro African Philosophy through Ubuntu (Filosofia Africana através de Ubuntu); o incontornável e também sul-africano Desmond Tutu, arcebispo que auferiu o prémio Nobel da Paz em 1984, devido à sua luta ao lado de Nelson Mandela contra a política de segregação racial — Ubunto esteve sempre presente no seu modo de agir e das suas muitas obras saliento aqui aquela que publicou em conjunto com sua santidade o 14º Dalai Lama, também ele agraciado pelo Nobel da Paz em 1989, em reconhecimento à sua luta pacífica para pôr fim à dominação chinesa no Tibete: The Book of Joy: Lasting Happiness in a Changing World publicado em 2016 (O livro da Alegria. Alcançar a felicidade num mundo em mudança). Ramose propõe que a humanidade se reconheça na dignidade atribuída ao outro. Desmond Tutu e Dalai Lama entretecem Ubuntu com a generosidade, a compaixão e capacidade de reconciliação. De referir ainda do filósofo americano Thaddeus Metz o artigo Towards an African Moral Theory (Rumo a uma teoria moral africana) onde se abordam os fundamentos racionais e éticos modernos da filosofia Ubuntu.
Num mundo globalizado marcado pelo individualismo competitivo, pelo consumismo e pela fragmentação social, Ubuntu oferece uma alternativa filosófica de grande atualidade. Esta filosofia convida-nos a repensar as noções de progresso, de justiça e de bem-estar, propondo que a realização pessoal só se cumpre no fortalecimento da comunidade. Nelson Mandela e Desmond Tutu recorreram a Ubuntu como horizonte ético na luta contra o apartheid e na construção de uma sociedade democrática, lembrando que não há reconciliação verdadeira sem o reconhecimento mútuo da dignidade humana. Embora defendessem a justiça, ambos priorizaram a reconstrução comunitária sobre vingança. Na esteira de uma ética da comunidade, Ubuntu não reduz o valor moral a regras abstratas, mas fundamenta-o na prática da convivência. Ser humano é ser responsável pelo outro, é cultivar compaixão, hospitalidade, solidariedade. O bem não é apenas o que respeita a direitos individuais, mas o que promove a harmonia e o florescimento da comunidade. Nesse sentido, Ubuntu inspira práticas restaurativas de justiça, nas quais reparar o vínculo e reintegrar o indivíduo à comunidade importa tanto quanto punir o erro.
Poderá a arte também ser/expressar Ubuntu?
Ubuntu não se restringe às relações humanas, mas expande-se para o universo como totalidade relacional. Ramose ressalta que o aspecto “ubu” em Ubuntu refere-se ao universo inteiro — e “ntu” ao florescimento da existência encarnado no humano falante.
Atrever-me-ia a dizer que a arte de Tchalata — o artista plástico moçambicano sobre o qual versou o artigo do mês passado — aplica a filosofia Ubuntu de forma sensível.
Tchalata recolhe detritos — pneus, borracha, ferro, plástico — e reinventa-os em forma de fauna e flora marítima e terrestre. Assim como ninguém é descartável na comunidade, também estes materiais nocivos não são lixo absoluto. São reintegrados à vida, num processo de tomada de consciência. O artista põe o dedo na ferida ecológica ao utilizar materiais poluentes que ameaçam a natureza, mas, ao transformar o lixo em beleza, oferece uma estética de esperança. Tchalata não irresponsabiliza, não foge da dor, mas cria uma resposta que aponta um caminho de cura frente ao trauma ecológico. Essa lógica é ética no sentido ubuntuano: o cuidado e a cura vêm pela re-inserção, não pela rejeição.
Na filosofia Ubuntu existe também o que se poderia chamar uma Epistemologia da Interdependência: o conhecimento, não é privilégio de um sujeito isolado, mas uma construção colectiva. A sabedoria não se acumula apenas em livros ou em mentes individuais, mas transmite-se através da oralidade, pela prática comunitária, e pelo diálogo inter-geracional. A verdade não é um monopólio, mas antes um processo partilhado, que emerge da escuta e do reconhecimento mútuo. É exactamente isto que creio que Tchalata põe em prática na sua escolinha da KaTembe: ao ensinar crianças a reciclar artisticamente, ao criar pontes entre a arte e a ecologia, introduz essa solidariedade de modo pedagógico e simbólico. Ele promove a identificação coletiva com o processo de transformação, reforçando que o agir ético envolve agir pelo bem comum num sentido alargado que inclui o planeta que a todos nos acolhe.
Há muito para pensar aqui, e sobram poucos caracteres. Deixo-vos mais algumas parábolas Ubuntu para sobre elas filosofarmos:
O ancião e a fogueira
Conta-se que um ancião de uma aldeia reuniu jovens guerreiros ao redor de uma fogueira. Colocou várias brasas juntas, e todas permaneceram acesas, fortes e brilhantes. Depois, retirou uma brasa e colocou-a sozinha na areia. Rapidamente ela se apagou.
Então disse:
“Assim é o ser humano. Isolado, apaga-se; junto da comunidade, mantém a sua chama acesa. Umuntu ngumuntu ngabantu — somos porque pertencemos uns aos outros.”
Mães e filhos
Numa aldeia, duas mães disputavam uma criança, cada uma afirmando ser a verdadeira mãe. O conselho de anciãos, inspirado pela sabedoria Ubuntu, disse:
— “A verdadeira mãe é aquela que se alegra quando o outro é feliz, e sofre quando o outro sofre.”
Uma das mulheres, ao ver a criança chorar, ofereceu-se para desistir da disputa para que o menino não sofresse. E os anciãos concluíram:
— “Esta é a mãe, pois ela compreende que a vida é maior que a posse.”
A aldeia sem fome
Numa época de seca, cada família guardava para si o pouco grão que possuía.
Um ancião reuniu todos os habitantes e pediu que cada um trouxesse um punhado de grãos e os colocasse num grande pote comum. No final, havia comida suficiente para alimentar toda a aldeia até à colheita seguinte.
O ancião disse:
— “Nenhum de nós sobreviveria sozinho. Mas juntos, sobrevivemos todos.”
Lanço-vos agora um desafio: para o próximo Café Filosófico crie a sua própria parábola Ubuntu contextualizada na actualidade. Até já!
Café Filosófico | 19 Setembro de 2025 | Casa Álvaro de Campos Tavira
Português: 16:30 – 18:00
English: 6:30 pm – 8:00 pm
Inscrições / To book: [email protected]
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: Tchalata — o encontro com um eco-alquimista | Por Maria João Neves
















