A obra de Thomas Mann está a ser revisitada por editoras como a Dom Quixote ou a Livros do Brasil.
O escritor alemão, distinguido com o prémio Nobel da Literatura em 1929, deixou uma obra essencial, entre a literatura e a filosofia, que continua a angariar leitores por todo o mundo. Reconhecido como um dos pilares da literatura moderna, Thomas Mann é autor de romances que definiram a cultura e o pensamento europeu da primeira metade do século XX e nos quais explorou temas como o declínio da burguesia, a relação entre arte e vida, a doença e a morte, e os abismos da alma humana.
A Montanha Mágica é, indiscutivelmente, uma obra-prima da literatura universal, a ler e reler, e que agora chega em edição especial e dupla, quer pela Dom Quixote, que tem vindo a publicar a obra do autor, e relançou as suas obras com novas capas, quer pela Livros do Brasil.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
O escritor alemão, distinguido com o prémio Nobel da Literatura em 1929, deixou uma obra essencial, entre a literatura e a filosofia, que continua a angariar leitores por todo o mundo
«Tonio Kröger é um jovem escritor de origem burguesa. Espírito atormentado, leva uma vida solitária, como que à parte dos outros homens. Não consegue viver sem se questionar constantemente, a si e ao seu trabalho, mas ao mesmo tempo aspira a uma existência banal, como a dos que vivem sem pensar, dos que não se analisam, não sonham, dos que se contentam em abandonarem-se aos instintos sociais. Numa palavra, sonha viver como Hans e Ingeborg, jovens e belos, loiros e de olhos azuis.
Thomas Mann aborda pela primeira vez na sua obra o tema do artista em choque ou em progressivo divórcio com a vida, tema que tanta importância viria a assumir no seu romance Doutor Fausto. Em grande parte autobiográfico, Tonio Kröger é a base de toda a obra de Thomas Mann.»

Este pequeno livro é mais uma pérola deste grande autor.
Esta é também uma obra bastante autobiográfica e como que um libelo ou manifesto da sua escrita. Nas próprias palavras do autor, citadas na capa: «a narrativa que é talvez ainda hoje, entre tudo o que escrevi, a mais próxima do meu coração.».
O livro atravessa parcialmente a vida de Tonio Kröger, detendo-se nos episódios que mais contribuíram para a formação da sua personalidade, numa rememoração selectiva. Logo no início encontramos um Tonio adolescente que está, a uma primeira leitura, apaixonado pelo colega Hans Hansen, numa paixão que parece aliás naturalmente justificada pelo facto de este outro jovem ser um modelo de beleza e perfeição: «Era extraordinariamente bonito e bem constituído, largo de ombros e estreito de ancas, com olhos despertos de um azul-aço e de olhar agudo e penetrante.» (pág. 9).

Adorado pelos professores, pelos colegas, em suma por todos aqueles que com ele se cruza, Hans é assim amado, mas também invejado por Tonio, que é, fisica e intelectualmente, o seu oposto. E é quando o jovem Tonio se detém nas suas razões, justificadas ou não, para esta inveja em relação ao amigo percebemos então que, tal como a homossexualidade aparentemente patente na obra A Morte em Veneza, esta questão de “amor ao mesmo” ou “amor grego” ganha outros contornos, em que no fundo Tonio gostaria de ser como o seu amado, pelo seu porte atlético, pela sua facilidade perante a vida, pela sua leveza, enquanto Tonio, além do próprio nome já de si exótico, da própria aparência física (filho de uma mãe sul-americana) se move com mais langor e encara a vida com uma certa melancolia, mergulhado nos seus livros. No segundo capítulo, a paixão de Tonio já não é Hans, mas outra deusa de aspecto igualmente louro e trigueiro, a loira Ingeborg Holm, pois, como se declara claramente no final do romance, o seu «mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.» (pág. 118).
A narrativa prossegue, com um pendor mais metafísico, outras vezes quase alegórico, e acompanhamos o percurso de Tonio de jovem amante da literatura a escritor: «Seguiu o caminho que tinha de seguir, um pouco desleixadamente e de forma irregular, assobiando, com a cabeça inclinada para o lado e olhando o longe, e quando errava, tal acontecia porque para muitos não há um único caminho certo.» (pág. 35).
Este é um relato do que significa amar-se a literatura, e viver em torno da literatura, tendo Thomas Mann criado uma personagem que veio a ser amado pela juventude intelectual do século XX, que se revia nesta estranheza e neste sentimento de não-pertença de Tonio em relação ao mundo, que analisa com rigor, mas com distanciamento frio, de um ser que parece vogar sem laços humanos. Destaque-se o episódio em que Tonio revisita a sua cidade-natal apenas para encontrar a sua casa transformada numa biblioteca pública e acaba a ser interrogado por um polícia que lhe pede os seus papéis, mas Tonio não tem forma de comprovar a sua identidade a não ser pelas provas do seu próximo livro, onde figura o seu romance.

E se perguntarem o que faz de uma obra literatura podemos considerar passagens como esta:
«Ao jantar, fora vizinho de Tonio Kröger e com movimentos tímidos e modestos tinha comido espantosas quantidades de omeleta de lavagante.» (pág. 87).
Thomas Mann nasceu em Lübeck, na Alemanha, a 6 de junho de 1875, e morreu em Zurique, em 1955.
É um dos nomes maiores da literatura do século XX, tendo visto o seu trabalho ser reconhecido com a atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1929.

Em 1933, com a nomeação de Hitler como chanceler da Alemanha, Mann exila-se primeiro na Suíça e depois, em 1938, nos EUA, tendo obtido a nacionalidade americana em 1944.
Após o fim da Segunda Guerra, Mann visitou a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental diversas vezes, mas recusou se a voltar a viver na Alemanha, preferindo estabelecer-se de novo na Suíça, em 1952.
Entre os seus livros, todos eles importantes, destacam-se Os Buddenbrook (1901), Tonio Kröger (1903), A Morte em Veneza (1912), A Montanha Mágica (1924), Mário e o Mágico (1930), a tetralogia José e os Seus Irmãos (1933-1943) e Doutor Fausto (1947).
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