“Qual será o coração, tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
ua tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fé, amor,
ó príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente”.
In “Cancioneiro Geral” de Garcia de Resende, 1516
Os amores entre o príncipe herdeiro D. Pedro e Inês de Castro, jovem aia de D. Constança foram, pelo dramatismo final, muito comentados nas cortes europeias.
Este episódio histórico ocorrido entre realidade e ficção aparece destacado na literatura, música, cinema, teatro, artes visuais, na cultura portuguesas em geral.
No mosteiro de Alcobaça, fundado por D. Afonso Henriques, estão patentes seis séculos passados, dois exemplares da arte tumular, obras-primas do gótico.

Sociólogo
O túmulo de Inês tal como o de D. Pedro são de autoria desconhecida, obras de talentosos mestres escultores, de elevada qualidade estética, os simbolismos representam o pensamento da época, a afirmação do poder e a perpetuação da vitória da justiça sobre a morte
Os romances de cavalaria eram preferências dos cancioneiros medievais, incluíam centenas de poemas, também prosa como o “Amadis de Gaula” obra saída da corte de Afonso X “O Sábio”.
Sobre Pedro e Inês escreveu em 1516 Garcia de Resende um “rimance”, verso musicado, que integra o “Cancioneiro Geral”, referem-se-lhes também António Ferreira em “A Castro” e Luís de Camões nos “Lusíadas” “passada esta tão próspera vitória/ tornando Afonso à Lusitana terra /A se lograr da paz com tanta glória/ Quanta soube ganhar na dura guerra/ O caso triste, e dino da memória/ Que do sepulcro os homens desenterra/ Aconteceu da misera e mesquinha que depois de ser morta foi rainha”.
Portugal e Galiza, nos séculos XIII e XIV, encontravam-se ligados pela língua, cultura e pelas origens comuns na nobreza franca. Nesses séculos eram recorrentes na realeza casamentos endogâmicos, por desígnios de concentração de poder e riqueza, alargamento de propriedades, a descendência pela consanguinidade nascia com deficiências físicas e mentais, referidos em documentos e pinturas.
Eram negociadas ainda crianças, princesas e príncipes, para casarem com herdeiros de outros reinos. Entre Portugal e Castela com os Habsburgos/Avis houve muitos matrimónios reais e descendentes, também numerosos bastardos, caso de D. João I, o Mestre de Avis, que em 1385 foi rei de Portugal dando início à segunda dinastia, nascido da relação de D. Pedro I com outra aia, Teresa Lourenço.
Na “História de Portugal” de 1879 Oliveira Martins escreveu no seu estilo de analista acutilante “a loucura de D. Pedro I vale, portanto, a nosso ver como o banditismo de Afonso Henriques, os dois reis são os dois tipos, da guerra e da justiça. Assim como a primeira era selvagem e feroz, a segunda é irregular, cheia de caprichos e arbitrária, acrescentando no texto que “D. Pedro I é a viva imagem da Idade Média, política e domesticada. Todos os vícios e todas as virtudes …”.
Inês de Castro (1325-1355), jovem da aristocracia galega, era irmã dos poderosos Castro, filha de um nobre conhecido por “O da Guerra”. Um dos irmãos foi Conde de Arraiolos, primeiro Condestável, houve riscos de alteração da sucessão.
D. Pedro afirmava-se casado com Inês de Castro, tiveram quatro filhos. Afonso IV passara por situação idêntica quando seu pai D. Dinis mostrou preferências por um bastardo e o perigo da coroa passar para Castela. Mandou matar Inês, o próprio rei terá estado na Quinta das Lágrimas em Coimbra.
O romance de Pedro e Inês é singular. Se as paixões são vulgares e os casamentos convenientes, o desfecho teve profundas consequências, guerra civil entre pai e filho, perseguição em Castela e captura de dois dos três autores do assassinato de Inês, executados pelo próprio rei. Epílogo do drama foi a coroação do cadáver colocado no trono, funeral real de Coimbra para Alcobaça, deposição do corpo num túmulo de extraordinária beleza escultórica.
O túmulo de Inês tal como o de D. Pedro são de autoria desconhecida, obras de talentosos mestres escultores, de elevada qualidade estética, os simbolismos representam o pensamento da época, a afirmação do poder e a perpetuação da vitória da justiça sobre a morte.
No túmulo D. Pedro surge jacente com coroa, olhos abertos em alerta, rodeado de anjos, na zona frontal cenas da vida de São Bartolomeu, protector dos gagos como seria o rei, a “Boa Morte” aos pés e a “Roda da Vida” na cabeceira.
No túmulo Inês de Castro, a rainha póstuma, está coroada adormecida, cada um dos lados frontais com cenas inscritas da vida de Cristo, na infância e adulto.
António José Saraiva, coautor com Óscar Lopes da mais reconhecida História da Literatura Portuguesa, escreveu em “O Crepúsculo da Idade Média em Portugal”, “estes túmulos são o documento mais espantoso que a Idade Média nos deixou sobre o amor de homem e mulher, o amor paixão, que não se deixa reduzir à sexualidade”.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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