O percurso da humanidade foi de mobilidades decorrentes da luta pela sobrevivência dos grupos nómadas, conquistas de territórios vizinhos, conflitos étnicos, esclavagismos e genocídios, ascensão e queda de impérios, colonizações e descolonizações, instabilidades geopolíticas. Se visualizarmos o mapa cronológico dos fluxos migratórios entre continentes, verificaremos os itinerários humanos e as alterações de fronteiras ao longo dos séculos.
Houve também a evolução de realizações artísticas, científicas, tecnológicas e nos direitos sociais.
A colonização portuguesa, 50 anos após as independências, a maioria destas realizadas em 1975, é ainda tema controverso. Porquê? As explicações são várias, tempo, distanciamento, estudo, …

Sociólogo
A expansão marítima, para diversos autores, foi a tentativa de criação de circuitos comerciais alternativos ao Suez e à antiquíssima rota da seda
A história de Portugal está contaminada por discursos ideológicos bipolares, o da gesta heróica da elite política visionária e dos navegadores corajosos, que proporcionaram um Império Ultramarino, em contraponto à culpabilização colectiva por comportamentos passados, ocupações de territórios, exploração de recursos noutros continentes, tráfico de seres humanos…
A referida bipolaridade tem origem na visão romantizada da História, análise dos acontecimentos à luz de valores éticos actuais, sem investigação partilhada com as ex-colónias. O regime anterior militarizou uma solução política justa e adequada, não descolonizou a tempo, de forma pacífica e negociada como era pretensão dos movimentos nacionalistas e da oposição democrática.
São diversas as questões colocadas ao estudo e compreensão das origens, causas e consequências da expansão marítima e da colonização portuguesa, processos que atravessam épocas históricas e diferentes regimes políticos.
Fernand Braudel (1902-1985) mostrou como a geografia, clima, população, sociologia, direito, determinam a organização social, o estabelecimento de civilizações de longa duração.
Para a compreensão dos processos coloniais será necessário recorrer à demografia portuguesa, história cultural e económica, das tecnologias de navegação e transportes, geografia humana e recursos naturais, a análise do surgimento do capitalismo bancário-financeiro detonador dos conflitos religiosos do século XVI, do protestantismo e calvinismo, génese dos modelos ideológicos divisivos de ocidente/oriente e norte/sul.
Em relação a Portugal constata-se que a expansão marítima integrou a estratégia nacional dois seculos antes do período designado por “descobertas portuguesas” dos séculos XV-XVI.
No século XII o almirante D. Fuas Roupinho, foi o primeiro comandante naval português, D. Dinis em 1314 contratou o almirante genovês Manuel Pessagno e vinte marinheiros, para reorganizarem a armada do reino.
O posicionamento geográfico e isolamento de Portugal não explicam por si só a expansão marítima. A presença de populações autóctones com origens étnicas, contactos mercantis e raízes culturais no Mediterrâneo, Europa do Sul, Médio Oriente e Norte África poderá ajudar a perceber as opções do final da Idade Média, tal como a influência da guerra dos Cem Anos e a peste negra que agravaram problemas demográficos e de subsistência alimentar.
Que motivações levaram um pequeno Reino, nos séculos XV-XVI com cerca de um milhão de habitantes, a lançar-se na exploração dos oceanos e terras distantes celebrando um tratado com Castela que, em Tordesilhas, dividiu o planeta entre ambos?
A expansão marítima, para diversos autores, foi a tentativa de criação de circuitos comerciais alternativos ao Suez e à antiquíssima rota da seda com 21.000 quilómetros que ligavam a China aos mercados europeus, protegida pela Grande Muralha.
Antagonismos surgiram na dinastia de Avis, entre a visão mercantil das burguesias de Lisboa e Porto defensoras de prioridade aos contactos com a África, Ásia e Brasil e o desejo da nobreza de conquista de praças e terras na Berberia, controlo do Estreito e das caravanas do Sahara. Esta teve como desfecho Alcácer Quibir em Agosto de 1578, o maior desastre militar da História portuguesa.
O estudo da expansão marítima portuguesa conta hoje com extensa bibliografia, dezenas de autores que em várias épocas abordaram as diversas temáticas.
O “Tratado dos Descobrimentos”, de António Galvão escrito em 1563, foi antecedido de obras de Zurara, Rui de Pina, João de Barros e outros. A partir do século XIX, com os romantismos históricos e expedições científicas, surgiram obras descritivas e analíticas de Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Serpa Pinto, Capelo e Ivens, …
No século XX de referência as obras de Armando Cortesão e Teixeira da Mota na cartografia, Vitorino de Magalhães Godinho na economia, Luís Albuquerque na história náutica, Raquel Soeiro de Brito, Orlando Ribeiro, Jorge Dias na geografia humana e etnografia ultramarinas, entre outros. De apologia e crítica do colonialismo, estão disponíveis obras de Norton de Matos, Mendes Correia, Silva Rego, Gilberto Freire, Adriano Moreira, José Capela, surgiram estudos recentes sobre o esclavagismo e as guerras coloniais. As instituições universitárias possuem hoje centros de estudos especializados nas áreas referidas que deram actualidade e impulso inovador.
Não foi ainda possível realizar o balanço de cinco séculos, nem concretizar o adiado museu síntese da expansão e colonização portuguesas. Preferível, em nossa opinião, um Museu da Língua e das Culturas de Origem Portuguesa, multinacional, evolutivo e pedagógico.
A língua portuguesa está em evolução e expansão, haverá novos “portugueses”, existe a história comum, que no futuro incluirá decerto a visão de colonizadores e colonizados.
História descomplexada, sem glórias e estigmas, será necessariamente partilhada e científica.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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