Existe uma intrincada relação entre os recentes massacres perpetrados por Israel e a ascensão da extrema-direita no ocidente.
Sem esquecer o inesquecível facto de que o povo judeu foi vítima do holocausto nazi e que historicamente tem sido um dos alvos preferenciais dos neonazis, a par de africanos e ciganos, é impossível não reparar que, nas últimas décadas, o discurso mudou.
Os judeus desapareceram da crítica, tanto nazi como fascista, assim como desapareceu a recorrente teoria da conspiração do controle judaico do mundo, visando agora os árabes e a igualmente ridícula teoria da substituição, alinhando desta forma interesses com o estado de Israel, para quem a Palestina é só o início do fim do Islão.

Autor, tradutor e editor
Neste cenário bélico, a cultura está a ser descapitalizada para que o exército seja armado de forma a defender-se contra uma fantasiosa vontade de Putin em ocupar toda a Europa
As tácitas de Netanyahu estão cada vez mais próximas das utilizadas pelo nacional-socialismo e a diferença reside apenas nas circunstâncias, fruto da velocidade e abertura a que a informação é veiculada, mesmo quando sob controle apertado.
O genocídio da Palestina serve os interesses tanto de sionistas fundamentalistas (a questão é acima de tudo financeira e não religiosa) como de neonazis, e o passo seguinte, agora consolidado no ataque ao Irão, é a guerra total no médio oriente. Essa guerra entre judeus e árabes será vantajosa, em última instância, para a extrema-direita ocidental que, entretanto, se apoderou dos aparelhos de estado.
A regularização deste modelo de pensamento monista pós-fascista vem legitimar agressões físicas como a que aconteceu a Adérito Lopes (perante a indiferença governamental) e a outros antes e aos que virão depois, enquanto as notícias mergulham nas incessantes manobras de diversão de Ventura, Trump e companhia.
Cada vez mais, afundamo-nos na vulnerabilidade e acima de tudo num sentimento de impotência sobre o que fazer perante situações de violência directa que se tornam cada vez mais frequentes.
E a recorrente sensação de insegurança invocada para culpabilizar a imigração deixa de ser mencionada, quando é realmente materializada por acções nazis.
Neste cenário bélico, a cultura está a ser descapitalizada para que o exército seja armado de forma a defender-se contra uma fantasiosa vontade de Putin em ocupar toda a Europa, e a sociedade civil se tornar cada vez mais refém de forças militares, policiais e políticas.
Este é o momento de redefinição perante um perigo real – físico, psicológico e espiritual – de pensar colectivamente numa resposta e questionar os limites do nosso pacifismo (até que ponto são medo) e a nossa dependência das instituições que não nos atendem.
Porque já ficou claro que o lado da opressão está organizado na captura do poder deixando-nos por nossa conta, como na verdade, sempre estivemos.
O vazio apenas se tornou agora gritantemente óbvio.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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