Francisco partiu há tão pouco tempo, e a saudade que temos dele já soa a eternidade. O lugar que deixou parece continuar vazio. A franqueza do sorriso já não será a mesma, não há dois humanos iguais, no altar dos Papas assim será também. Neste mundo em permanente estado de convulsão, a irritabilidade atinge níveis vulcânicos, a conflitualidade e a intolerância instalaram-se a todos os níveis, entre pessoas, credos, ideologias, nações, clubites.
Para Francisco a ira era má conselheira, um pecado desenfreado que destrói as relações entre as pessoas e que está na origem das guerras e da violência. Alimenta-se de ódio, destrói a clareza do raciocínio, a culpa de todos os males colectivos ou individuais está sempre no “outro”. Claro que a ira faz parte da nossa natureza, a irascibilidade é inegável e inevitável, mas não ter responsabilidade pela sua existência não nos descarta do seu desenvolvimento ou da forma como se expressa. Nela existe até essa componente benéfica que nos faz indignar perante uma injustiça, uma opressão, um roubo, uma violação de carne ou de direito. O que Francisco designou de “santa indignação”, assim a distinguindo da ira pela medida certa da sua expressão.
Há muitas formas de irritação, raiva no dizer popular. Aquela que se exprime na rua, e aquela que fica lá dentro a recozer ressentimento. Raiva por frustração e raiva instrumental. Conheci um patrão com pavio muito curto, que se irritava facilmente ao mais pequeno detalhe, à mais simples palavra, ao mais pequeno atraso, ao incidente mais inócuo. Num só minuto trepava aos himalaias, no rubor da raiva que lhe dilatava as carótidas. À sua volta metralhava tudo e todos com perdigotos, insultos e gritaria. Terminada a eclosão, descia à terra e parecia um cordeirinho de ternura e simpatia. Mas, atrás de si, só restavam ruínas de edifícios que nunca mais seriam reconstruídos.
O problema surge quando a raiva se torna crónica, desproporcional ao gatilho, violenta mesmo para o portador da raiva ou para terceiros. Prolifera por aí uma turba dos profissionais da indignação e do protesto, sempre lestos a levantar a voz, o braço e a irritação por tudo e por nada que sirva para agitar multidões, sabe-se lá ao serviço de que agendas ocultas, quando não do afagar de egos e vaidades, tão cientes da sua qualidade de activistas, seja lá o que isso for.
Quanta dificuldade em encontrar um meio termo entre um modelo de comunicar apenas virtudes ou alices num país de maravilha, e o de um écran a preto e branco, onde tudo e todos sãos maus, nada funciona nem nada está bem! Acompanhar um telejornal hoje é, do princípio até ao fim, um desfile de horrores, de desastres e tragédias, um exercício de sadomasoquismo quantas vezes acompanhado de umas garfadas de alimentos bem regados ao almoço ou ao jantar. Fogos e cheias, urgências hospitalares, crimes de faca e alguidar, greves e manifestações de protesto, escândalos políticos, assaltos, corrupção, gente sem abrigo, a caldeirada da irritação tem os temperos todos para um sabor amargo.
Existe uma saturação de “breaking news”, sem verificação suficiente, apressando notícias sem confirmação sólida, gerando ansiedade colectiva, numa corrida para ver quem leva a notícia primeiro ao telespectador. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, costumava-se dizer, quando a tradição era respeitada. Passa-se do oito para o oitenta à velocidade do relâmpago. As televisões e os espaços informativos transformaram-se em altares sagrados do sensacionalismo e do alarmismo, alimentando-se da polémica, criando pânicos desnecessários, repetindo peças até à exaustão do público, sem nota de arrependimento. Existe uma predominância de notícias sobre corrupção, crises políticas e conflitos entre partidos às custas de temas do quotidiano das pessoas. Com raras e honrosas excepções, assiste-se à editorialização camuflada de notícias, a jornalistas com pele de políticos e a comentadores (uma epidemia!…) travestidos de falsa neutralidade.
Os debates são apresentados como “duelos entre lados” com pouca ou nenhuma visão de soluções concretas, uma autêntica “venturização” que migrou da bola para a política, porque se acha que o que importa é ter mais “share”, mais audiência, logo, mais publicidade, maior receita. Entre o Medo e o Mercado, a distância vai curta!
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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