Ao ritmo do Harlem
Depois de dois prémios Pulitzer, atribuídos aos romances A estrada subterrânea (também vencedor do National Book Award e da Carnegie Medal for Fiction, entre outras distinções) e Os rapazes de Nickel, Colson Whitehead regressou ao romance com Ao ritmo do Harlem (tradução de Miguel Cardoso). Publicado em 2022, voltei a este livro para poder passar ao que foi lançado mais recentemente, intitulado Tratado de Vigaristas, e que embora possa ler separadamente dá continuidade ao primeiro livro. Aparentemente tratar-se-á de uma trilogia (relativa a Harlem). O autor tem sido publicado pela Alfaguara. Sendo um escritor norte-americano de referência, os seus livros entraram ainda na recente selecção dos melhores livros do século para o The New York Times.
Confesso que tenho lido atentamente o autor desde o primeiro livro, e gosto de o ler, mas talvez seja exagerado o mérito ou sucesso que tem alcançado.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Aquilo que o autor faz bem é colocar o dedo na grande ferida da América, pois todos os seus romances tocam nos temas do racismo, da desigualdade, do poder e da injustiça.
Ray Carney tem uma história semelhante à de várias outras personagens do seu bairro. E uma das particularidades deste livro é a forma como uma história leva a outra, num jogo intrincado de associações, mesmo que seja preciso recuar no tempo. Ray é proprietário de uma loja relativamente respeitada de mobília, é um marido apaixonado e pai de família, um homem pacato, apesar de algumas pessoas o associarem ao pai, um homem de esquemas…
“Do modo como ele via as coisas, uma pessoa não tem de viver como a ensinaram a viver. Vem-se de algum lugar, mas é mais importante o lugar para onde se decide ir.” (p.24)

Quem também vive assim, ao sabor da maré e na corda bamba, ousando entrar nos esquemas que se lhe proporcionam, é o seu primo Freddie, e melhor amigo desde infância, que o tenta arrastar para as suas atividades ilícitas.
O passatempo de Ray é deambular pela cidade enquanto sonha morar nos bons apartamentos que encontra, em andares mais elevados e com grandes vistas. Contudo, grandes sonhos levam também a grandes quedas…
Tratado de vigaristas
Tratado de vigaristas, de Colson Whitehead, com tradução de Nuno Quintas, publicado pela Alfaguara, retoma a ação de Ao ritmo do Harlem alguns anos depois. Passamos de 1964 para a década de 70, quando Ray, depois de um breve interregno, se vê forçado a sair da reforma e retomar um papel parcialmente ativo no submundo do crime do Harlem. Considerado um dos melhores livros do ano pelo The New York Times, este é o mais recente romance de um dos mais premiados escritores da atualidade, voz literária fundamental na literatura negra que se tem dedicado a recontar a história e a cultura negra norte-americana ao longo dos últimos séculos.
“O carro não era o mesmo, mas tinha a certeza de já ter tido a sua quota-parte de sarilhos. Acumulava violência como quilometragem. Controlamos a quilometragem por ser importante: não perdiam era tempo a contar os negros que tinham desancado.” (p. 75)
Se no volume anterior, se pode sentir alguma dificuldade a certa altura pois embora interessante a história ganhava contornos retorcidos, que podem desmotivar ou desinteressar o leitor, esta narrativa prende-nos e delicia-nos, numa prosa escorreita, satírica, divertida, com histórias, por vezes rocambolescas, de crimes e castigos, episódios tragicómicos, pequenas vinganças, negócios obscuros, grandes esquemas, disfarces e traições.
Na alucinante Nova Iorque dos anos 70, os Jackson 5 (mas eles não eram 6?) atraem multidões de jovens raparigas em delírio. Sente-se já a vibração da contracultura, a alimentar uma nova geração e a derrubar alguns preconceitos. Depois de 4 anos de uma vida honesta, Ray é novamente empurrado para o mundo do crime por um agente policial num périplo de recolhas de dinheiro, ou seja, na “voltinha dos envelopes” (p. 75), que rapidamente descamba.
“Metade dos bófias de Nova Iorque eram primeiro gatunos e polícias depois. Numa cidade assim, convém-nos aceitar a porra das contradições.” (p. 150)
Vive-se um Verão tórrido. Os arranha-céus continuam a empilhar-se. Polícias brancos a agredirem um negro na via pública não é algo de fazer parar o trânsito. Na grande cidade a taxa de homicídios quadruplicou relativamente à década anterior, as violações e os roubos a carros e os assaltos atingiram recordes históricos. O Harlem está diferente, segundo os seus próprios habitantes. “Nos tempos que correm, acanalha não tinha código e tinha menos classe.” (p. 81)

Destaco a qualidade da tradução, em que Nuno Quintas (da Oficina Caixa-alta) consegue (como já tinha feito em Um lugar para Mungo, de Douglas Stuart) verter para o português o registo coloquial do original, cheio de ironia e gíria, mantendo uma prosa fluída, rápida, divertida:
“Iniciava-se outro sufocante verão nova-iorquino. O ar condicionado por cima da entrada da loja tossia e arquejava feito camioneta urbana, mas fazia o que lhe competia.” (p. 27)
Um memorial e um retrato fascinante do mundo fervilhante do bairro do Harlem, de um lugar e de uma época desaparecidos, denúncia de um país fraturado, numa saga que se prevê contemplar ainda um terceiro volume. Um livro que nos fala de homens duros como xisto, feitos da mesma matéria que a cidade nas suas fundações, e que por isso sobrevivem às desgraças e injustiças que sobre eles se abatem, devida ou indevidamente, até porque na verdade brincam com o fogo.
Neste volume Ray Carney subsume-se numa boa parte da narrativa (a segunda parte inteira) e dá lugar a uma outra personagem que toma a dianteira: Pepper. Mas o verdadeiro protagonista aqui é o Harlem, tomado como o coração da sempiterna e mutável cidade de Nova Iorque.
Colson Whitehead nasceu em 1969, em Nova Iorque. Estudou em Harvard e começou por trabalhar no Village Voice, recenseando discos, filmes e livros. Foi finalista do Prémio PEN/Hemingway com o seu primeiro livro, The Intuitionist. Publicou vários romances e dois volumes de não ficção, The Colossus of New York e The Noble Hustle. Foi finalista dos prémios Pulitzer, Pen/Oakland e PEN/Faulkner.
Com A estrada subterrânea venceu o Prémio Pulitzer, o National Book Award e a Carnegie Medal for Fiction, entre outras distinções. Este romance foi adaptado a série televisiva por Barry Jenkins, realizador que arrecadou um Óscar com o filme Moonlight. Whitehead venceu pela segunda vez o Prémio Pulitzer – feito raramente alcançado na história da literatura americana – com o romance Os rapazes de Nickel, distinguido ainda com o Prémio Kirkus e o Prémio Orwell para Ficção Política. Entre as instituições onde lecionou encontram-se as universidades de Columbia, Princeton, Nova Iorque, Houston e Wesleyan, bem como o Brooklyn College. Foi distinguido com as bolsas Guggenheim, MacArthur e Cullman Center for Scholars and Writers. Em 2020, a Biblioteca do Congresso atribuiu-lhe o Prize for American Fiction. Vive em Nova Iorque.
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