O mês passado dedicámos esta página ao poema Autopsicografia de Fernando Pessoa.
Em complementaridade, eis agora como o poeta responde aos seus detractores:
Quando Pessoa inicia o poema com o tom vago que emprega em “Dizem” estará, provavelmente, a responder a um eco social e interpretativo, não a indivíduos determinados. “Dizem” é impessoal e genérico — pode representar a opinião pública, o senso comum, e até a incompreensão do leitor menos apetrechado para compreender a sua arte. Aliás, que se saiba, os que o acusaram não foram nem os críticos literários nem os seus pares, mas sim o público geral cuja mentalidade realista e sentimental da época esperava da poesia autenticidade confessional, emoção directa e sinceridade biográfica — justamente o oposto da arte pessoana.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, investigadora da Universidade Nova de Lisboa
O fingimento, entendido como criação de aparências, remete inevitavelmente Platão, para quem a arte constituía um duplo afastamento da verdade
Como já referido no artigo anterior, o poema Autopsicografia foi escrito no dia 1 de Abril — Dia das Mentiras — em 1931. Esta data já aponta para a evidência lógica de uma dupla negação que se converte, portanto, em afirmação. É, diria eu, um piscar de olhos poético. O poema foi publicado pela primeira vez na revista Presença Nº 36, na Coimbra de 1932. ISTO, por sua vez, é publicado no Nº 38 da mesma revista em Abril de 1933, o que indica que terá sido escrito entre 1931 e 1933. Ambos os poemas são re-publicados postumamente, em 1942, pela editora Ática de Lisboa, numa colectânea que se intitula: Poesias. Fernando Pessoa.
A tese de defesa, presente em ISTO, ao fingimento declarado em Autopsicografia surge logo quando o poeta afirma que sente com a imaginação e não com o coração. Esta frase sintetiza um posicionamento filosófico crucial e proponho que sobre ela dialoguemos com Platão, Aristóteles e Kant.

O fingimento, entendido como criação de aparências, remete inevitavelmente Platão, para quem a arte constituía um duplo afastamento da verdade: os artistas imitam o mundo sensível, que já é uma cópia imperfeita do mundo das Ideias. Por essa razão Platão, num esforço extremo por alcançar a verdade, exclui todos os artistas, sejam eles poetas, músicos, pintores, actores, etc. Nenhum deles tem lugar no estado ideal que giza em A República, onde todos os amantes das musas são banidos. Porém, poderíamos considerar que Pessoa, de certa forma, consegue esquivar a dura sentença platónica pois, se o mundo sensível já é ilusão, a arte é ilusão consciente e, por isso mesmo, mais verdadeira. O poeta sabe que finge — e esse saber redime-o.
Curiosamente, será o mais brilhante discípulo de Platão — Aristóteles — quem virá salvar a arte. Na sua obra Poética virá defender as “artes imitativas”, conceito que mais se aproxima ao de “belas artes”, tal como o entendemos hoje em dia. Aristóteles dirá, então, que a arte não pretende criar realidade, mas sim, imitação de realidade. Por outro lado, cria pela primeira vez, o espaço da liberdade artística afirmando que o artista pode escolher entre imitar a realidade tal e como lhe aparece, embelezá-la ou torná-la mais feia. Afirma ainda que a arte pode ser fonte de prazer mesmo quando imita objectos que, na natureza, não são agradáveis nem prazenteiros. O fingimento, aqui, é o processo de mediação estética entre o sentir imediato e a forma poética. O poeta não mente: ele recria. Aristóteles distingue a história — relato do que aconteceu — da poesia, que trata do que poderia acontecer segundo a verosimilhança ou a necessidade. Enquanto o historiador descreve factos particulares, o poeta revela o universal humano. Assim, o fingimento pessoano é o meio pelo qual a emoção singular é transfigurada em universalidade estética.
Concentremo-nos agora em tentar entender o que Pessoa poderá ter querido dizer com “sentir com a imaginação”. Aqui, o poeta reformula o fingimento como faculdade imaginativa. Não há mentira, mas um modo superior de sentir: o sentir mediado pela imaginação. Esta concepção remete para Immanuel Kant que, na Crítica da Faculdade do Juízo, define o juízo estético como “desinteressado”, isto é, livre do desejo e de finalidade prática ou conhecimento. O prazer estético nasce do “livre jogo entre a imaginação e o entendimento”. Quando Pessoa afirma “não uso o coração”, ele propõe uma forma de sentir que, à semelhança do juízo estético kantiano, suspende qualquer tipo de interesse, seja ele cognitivo ou sentimental, pessoal ou colectivo. O poeta contempla o sentimento, em vez de sofrer com ele. Assim, o sentir imaginativo é um modo de estar ido à “forma da representação” e não da emoção primária.
Não usar o coração pode significar libertar-se da servidão emocional, elevar-se à contemplação estética, precisamente no sentido em que, no artigo anterior, expusemos o conceito de “artisticidade” da arte em Ortega y Gasset. A emoção real, particular e efémera, é desinteressante. Só quando depurado pela imaginação o sentimento alcança forma artística. Por isso mesmo o poeta nos diz em ISTO: “tudo o que sonho ou passo / (…) / é como que um terraço / Sobre outra coisa ainda. /Essa coisa é que é linda.”
As experiências pessoais, as emoções particulares são esse terraço, são o chão do poeta, são a base a partir da qual ele cria. Se se limitasse a descrever esse chão estaria no registo desinteressante da confissão. Porém, fazendo desse terraço emocional o seu sustento, o poeta debruça-se “sobre outra coisa ainda” essa coisa que roça o inefável e por isso transcende línguas, culturas, e geografias como só a obra de um grande poeta logra. Neste sentido, fingir é dar forma ao indizível.
Em abono da verdade há que referir que os críticos e estudiosos da sua obra jamais o acusaram de mentir, vejamos alguns exemplos:
Adolfo Casais Monteiro com quem Pessoa trocou correspondência, e a quem escreveu a famosa epístola “Carta sobre a génese dos heterónimos”, no ensaio Fernando Pessoa, o Insincero Verídico, publicado em 1954, afirma que, para Pessoa, fingir não é mentir mas multiplicar-se — explorar as várias dimensões do eu. É com lucidez que o poeta cria os seus heterónimos, em perfeita consciência deste desdobramento.
Já em 1949 Jacinto do Prado Coelho em Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa reforçava que o fingimento é o “trabalho poético da emoção” e não um disfarce. Caracterizava pessoa como o poeta da “diversidade interior” e considerava a heteronímia não como uma doença ou um capricho mas antes como um modo de expressão de uma consciência complexa, uma tentativa de representar todas as possibilidades do ser.
Jorge de Sena em Fernando Pessoa & Cia. Heterónima, publicado postumamente, em 1982, via o fingimento em Pessoa não como falsidade, mas como forma suprema de autenticidade artística. Fingir seria, então, o acto próprio do poeta — o exercício consciente da imaginação, o domínio técnico e espiritual que transforma a dor em arte. Em síntese: o fingimento pessoano seria a sinceridade levada à perfeição estética — o triunfo da arte sobre a confissão.
E com ISTO termino!
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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